quinta-feira, agosto 14, 2014

Os Campeões


Parem um pouco, vamos refletir. Vocês realmente acreditam que a Fórmula 1 sempre foi um circo de homens glabros e mulheres com quatro galões de silicone em cada peito? Negativo.

Há muitas luas atrás, no Brasil inóspito e distante, as panteras usavam moletom. Homens canastras colocavam medalhões de prata. E até mesmo pequenas criancinhas eram cooptadas com bebidas alcoólicas. Isto nos mais puros dos roteiros. Roteiros puríssimos, de cinema popular. 

Exemplo: “Os Campeões” (1982), último filme do diretor e montador Carlos Coimbra. Mário (Armando Bógus) e Miguel (Tony Correia) são pilotos de Fórmula V e stock-car: os genéricos da Fórmula 1, que já fazia fama com Emerson Fittipaldi e Nelson Piquet. Os dois se conhecem e convidam um garoto (Oberdan Junior), para viver os “bastidores da auto-velocidade”. 

A insuportável criança parece não ter pai, nem mãe. Bebe caneca de vinho e taça de champanhe. Tira uma chinfra, circula com as voluptuosas Cristina (Monique Lafond) e Carla (Tamara Taxman), na maior, sem qualquer lembrança do Estatuto da Criança e do Adolescente (que só viria em 1990) ou do Conselho Tutelar. 

Erguendo as mãos para os céus, nesta hora solene, eu lhes digo. Quisera eu ter a mesma sorte e flanar, na minha mocidade, com Lafond e Taxman, no auge das belezas. A verdade é que, ao menor sinal de rebeldia automobilística, meu saudoso e velho pai levaria a filha de volta para a escola. Sim, a escola. Aonde nós, crianças, brincávamos de massinha, lápis de cor e preenchíamos os cadernos com a profana caligrafia. Este não é o caso do garoto de “Os Campeões”. Ele reina.

Interessante notar que, em termos de estrutura narrativa, a presença do menino de uns 10 anos de idade garantiria (pelo menos em tese) o público mirim. Lembrem-se que, no ano de 1982, a produção brasileira já pendia para o lado infanto-juvenil, com as séries de clássicos do Os Trapalhões, dirigidos por J. B. Tanko na era pré-Xuxa.

“Os Campeões” é um rabo-de-galo, um ogro, escondido em um produto angelical. Tudo por força das circunstâncias. Em uma tarde de sol, Carlos Coimbra, terminava “Iracema, a Virgem dos Lábios de Mel” (1979). Era a adaptação sobre a gueixa indígena, com Helena Ramos – besuntada de maquiagem – e Tony Correia. Passado um tempo, Coimbra fecha outro contrato com Correia. Porque Tony, nascido em Canas de Senhorim, Beira Alta, Portugal, era o portuguesinho da vez. Capa das revistas, galã de novela. “Os Campeões” ganha forma e agrega Bógus, que incorpora o malandro carioca da história. 

Português e carioca viajam pelo Brasil, participam de corridas, estapeiam bandidos no estilo pastelão. Cada mocinho recebe um rival: Mário e Carlos (José de Abreu), Miguel e Jorge (Marcelo Picchi). Wilza Carla surge no papel de gorda. O mesmo que teria nas fitas de Carlo Mossy dos anos 70 e a mesma persona que a ex-vedete manteve por décadas. Perto do fim, em 2011, Wilza frequentava programas de TV. Falava com uma eloquência gélida, do tipo que mói os ossos de quem um dia cobiçou as musas borderlines do Cassino da Urca. 

“Os Campeões” voa tranquilo, sem maiores problemas. Os closes durante as corridas deixam claro o estilo do cinema feito no peito e na raça, sem muito dinheiro no bolso. E isto apesar da lábia de Tony Correia (também produtor), que convenceu muita gente a entrar no projeto. Boites discoteques fazem o estilo ostentação, como Amaurys Juniors e MCs Guinês de antanho, entre chiques e famosos. 

Atenção para Alain Prost, constrangido pela abordagem espaçosa de Correia. Estamos sem áudio, vemos os dois e acontece o efeito cômico inesperado. Chega a parecer que o mocetão aplica um golpe no francês, tentando vender-lhe um naco do Pão de Açúcar. Sem perceberem, o filme deixa claro que o carioca de Bógus não é o único malandro. E que o português, na engenhosa lusitanidade, cumpre a função social de nos despertar as presepadas mais íntimas. 

Direção, roteiro, edição e montagem concentrados em um homem só: Carlos Coimbra. Típico de alguém que jogava nas onze e criou momentos como o hammeresco “O Signo de Escorpião” (1974) e o thriller cearense “O Homem de Papel” (1976). Terminada a gravação de “Os Campeões”, sem o retorno financeiro esperado, Coimbra mergulhou quase 30 anos fora do cinema. Morto em 2007, não voltou a dirigir. Quem quiser conhecê-lo, comece por este. “Os Campeões” foi a porta de saída, mas nada impede que seja uma estréia para o leitor.

7 comentários:

Gil Lima disse...

Andrea: você tentou conversar com a Imprensa Oficial do Estado de São Paulo, para a edição do sei livro? O Alfredo Sternheim editou por lá, entre outros,o Dicionário da Boca. Boa Sorte.

Anônimo disse...

Cara Andrea Ormond,em um de meus passeios diários pelo "Estranho Encontro",a surpresa compensadora:o blog continua,e mais este filme escapou do esquecimento destinado aos filmes realizados fora do modelo da "sociochanchada"( excelente achado).Não repetirei sugestões que ja fiz para futuras resenhas:você tem uma lógica própria de elaborar seus textos e quem admira este blog sabe respeitar isto.Que outros tantos filmes tenham direito a ser resenhados por você.
Abraços do Fernando Pawwlow

Andrea Ormond disse...

Gil, a coleção Aplauso foi descontinuada, há alguns anos. Não parece que vai voltar.

Fernando, isto não é campanha de sindicato, mas a luta e o blog continuam. Tem muito filme ainda sobre o que escrever. A questão agora é a periodicidade, em vista do que falei no post anterior. Abraços

Marco Antonio Santos Freitas Santos Freitas disse...

Conversando com o lendário Ivo Czamanski-Diretor de Fotografia de vários filmes de Teixeirinha, Cinejornais épicos, curtas gore-Neopasolinianos de R. Ferrari e aventuras de Tabajara Ruas-, há uns 10 anos, ele me contou que trabalhou nesse ambicioso projeto...pena que não faturou nas bilheterias o esperado.

Andrea Ormond disse...

Marco, acho que o filme naufragou pela indecisão entre ser adulto ou infanto-juvenil. Ficou no limbo.

Marco Antonio Santos Freitas Santos Freitas disse...

Provavelmente.

Marcelo Lessa disse...

Um dos meus filmes prediletos! Charme puro dos anos 80! Sem prejuízo da estranha barba postiça do Picchi (ela vai e vem durante o longa) e alguns erros de continuação, nada compromete esse clássico nacional, cujo mini-poster do cartaz, inclusive, enfeita a minha humilde videoteca!