quarta-feira, agosto 14, 2013

A Casa de Alice


Primeiro longa-metragem do documentarista Chico Teixeira na ficção, “A Casa de Alice” (2007) é um dos vários subestimados filmes nacionais. Jogado na fogueira dos coadjuvantes, quando de fato não o é.

Para princípio de conversa, temos aqui uma versão do povo cockney brasileiro. Sem os lps de Roberto Carlos ou a bravura indômita das mulheres de Carlos Reichenbach. Nem sinal das outras borboletas da Boca do Lixo. “A Casa de Alice” é tristeza e inferno. Ninguém tem vocação para sorrir.

Imaginem que “A Dama do Lotação” pegou uma gripe, entrou no ônibus e sarrou-se no imemorial afro-brasileiro. Chocha e sedenta de sexo. Alice (Carla Ribas) é uma versão distímica da mulher rodrigueana. Há uma cena que inclusive relembra o clássico de Nelson, filmado por Neville de Almeida em 1978. Alice macambúzia, entorpecida nas brumas do cinza paulistano. Atrás dela, o gigantesco deus de ébano.

“A Casa de Alice” acompanha a mulher, o marido, a mãe e os três filhos. Poucos dias na vida da quarentona, jogada às traças pelo taxista Lindomar (Zécarlos Machado). Poucas vezes os dois praticaram o coito e então deram a luz a Lucas (Vinícius Zinn), Edinho (Ricardo Villaça) e Junior (Felipe Massuia).

Com a assessoria da mãe (Jacira, Berta Zemmel), Alice tenta praticar um protetorado feminino no meio do gang bang existencial. Conviver com quatro bestas-feras do sexo oposto.

A construção do filme não abre muitas externas para os filhos e para o marido. Apenas Alice é quem sai do apartamento e volta para ele, diariamente. Lixa as unhas das clientes em um salão precário, no qual bate ponto. A casa de Alice é, portanto, o escoadouro e o centralizador dos problemas da família.

No quesito do horror familiar, os filhos externalizam a boçalidade do pai. Lucas, militar, idolatra o velho. Junto com ele, fala aqueles jargões de capados, misóginos, até mesmo para se distraírem. Nada da saudável picuinha entre os sexos. Ódio bestial mesmo.

Acontece que Lucas é michê. E espancador. E apaixonado pelo irmão. Em momento inteligentíssimo do roteiro de Teixeira, Lucas investe para cima do caçula e, se não concretiza o ato, pelo menos o deixa no ar, no meio dos escombros. O quase contemporâneo “Do Começo Ao Fim” (2009) aborda a questão e inverte a câmera: os irmãos ficam no centro e a partir deles é que a trama se irradia.

O irmão do meio, Edinho, poderia ser o queridinho da vovó Jacira. Mas entendam: trata-se de um filme para adultos. Nem sempre existem queridinhos da vovó. Vovó é um apêndice, enviado carinhosamente para o asilo. Talvez Jacira cantasse um “Free At Last”, se tivesse a vibe de Mahalia Jackson, em uma choupana batista no Mississippi. Libertada porque sozinha, ouve rádio AM e o silêncio sepulcral do sanatório. Acontece que o deus de Jacira não é de ébano. Preconceituosa, sempre desprezou as amizades da filha com negros.

“A Casa de Alice” demonstra o ritual das classes baixas, as delícias psicanalíticas da família. Os intrincados corredores mentais do grupo não nos deixam mentir. Vejam também em Alice o aspecto da mulher antiga – que todos achavam morta e enterrada desde o “Relatório Hite”, lido com vozeirão de barítono por senhoras prafentex.

Quem teria a audácia de fazer da heroína uma mulher bamba, covarde, que não se preocupa com a mais valia econômica ou com os traumas da ditadura militar? Chico Teixeira conseguiu. E, acreditem, mulheres assim existem. Se o cinema brasileiro não quer retratá-las, problema. Nem todas as mulheres sonham grande, nem todas se preocupam com o bem-estar dos filhos ou com a vocação para a eternidade.

Em “Casa de Alice”, a História e os vultos maravilhosos somem do mapa. A satisfação de Alice é pequenina, cabe no próprio umbigo. E, por total incompetência, nem mesmo um naco de satisfação ela consegue. Podem anotá-lo sem medo na lista dos filmes dos 2000 que precisam ser vistos.


5 comentários:

Luis Santos disse...

Andrea... você, como de praxe, me tira um peso do peito. Dá vontade de qual louco ir para a rua com cartazes e cara mascarada, mas com escritos para que as pessoas assistam a este filme.

Obrigado por você existir.

BLONGMONKY disse...

Assisti este filme faz um tempo e ainda me lembro dele.

Ademar amancio disse...

Bonito filme.a intenção homoafetiva entre os irmãos poderia ter sido um pouquinho mais insinuante,ou picante sei lá.

Andrea Ormond disse...

Luis, agradeço, e muito, o seu comentário. Escrevo para ser lida. Saber que existem na outra ponta da tela leitores de sensibilidade extrema como você deixam o ofício ainda mais imprescindível para mim. Digo e repito: "A Casa de Alice" precisa sair urgentemente das trevas e tomar o lugar que é de direito no cinema brasileiro dos anos 2000.

Blogmonky, o "Casa de Alice" tem uma aura forte, realmente. Um clima depressivo, que nos faz guardar as imagens com o tempo.

Ademar, o diretor quis focar na Alice mesmo, nas idas e vindas da casa. Concordo. Se a relação dos irmãos fosse mais concretizada, teríamos atingido um outro patamar no filme.

^^ disse...

Olá Andrea. Conheci teu blog recentemente e adorei teus textos. Já recomendei aos amigos. Continue este ótimo trabalho. Abçs.