segunda-feira, janeiro 20, 2014

O Anjo da Noite


Primeira cena: Ana abre o portão de uma casa de vila, estúpida e feiosa, no subúrbio do Rio de Janeiro. Está cercada pelos trens, os mesmos que Leon Hirszman usou para “A Falecida” (1965), de Nelson Rodrigues.

Em “O Anjo da Noite” (1974), a protagonista muda. Não temos aqui a mulher chata, cepecista, cliente da RFFSA. Pelo contrário. Ana é uma criatura diáfana, acima do tempo real.

Outro Rodrigues está mais próximo do filme: Roberto, o irmão de Nelson. Com pinta de Rodolfo Valentino e assassinado a tiros, Roberto costumava desenhar manecas lúgubres. De mãos finas e delicadas. E as mãos são o objeto do fetichismo de Walter Hugo Khouri. O diretor enquadra os dedos de Selma Egrei como uma resposta à (deliciosa) nuca de Jacqueline Myrna, em “As Cariocas” (1966).

Ana (Selma Egrei) viaja para Petrópolis. Quer ser babá de duas crianças. Alta, bonitona e impávida, ela circula pela Central do Brasil. Sobe a escada rolante da Rodoviária Novo Rio, paga a passagem. Ao fundo, como uma praga de Lovecraft (“even death itself may die”), escutamos a marcação de um surdo. Em compasso marcial. Parece a recordação de um enterro que ainda não vimos: escuro e indefinível. Quem mais colocaria um surdo esotérico na Novo Rio? Não conheço outro diretor, na história do cinema brasileiro, que tenha subvertido dessa maneira o lugar.

“O Anjo da Noite” é uma coleção de atmosferas. Essa breve descrição de menos de quatro minutos do filme deixa claro o veredito. Há um peso em situações que seriam medíocres. Khouri e a montagem de Mauro Alice realizam o destino de toda obra de vulto: passar a impressão de que o difícil é tão fácil quanto lamber um punhado de cerejas. Acontece que não é.

Para conseguir esse estado permanente de quase-surto, um truque perturbador: afinal de contas, quem observa Ana? A câmera muda a toda hora, levando a um estranhamento brabíssimo. Na cartilha das boas intenções cinematográficas, todo espectador sabe quando um personagem está sendo olhado por outro. No “O Anjo da Noite”, o cerebralismo de Khouri faz com que percamos o fio da meada. Talvez seja Deus quem a observa. Ou talvez o Demônio, ou até mesmo o delírio da moça.

Exemplo: telefones começam a tocar na mansão de Petrópolis. Ana atende. É um trote. Acontece outro. E mais outro, em seguida. Qual deles será o trote de Augusto (o vigia noturno), qual será o de Marcelinho (o filho da patroa), qual será o telefonema de Raquel (a patroa)? Não podemos predizer quem está do outro lado da linha, tudo se mistura na necessária confusão mental. Uma vertigem que Khouri e Alice expõem visualmente.

Décimo-segundo longa-metragem de WHK, “O Anjo da Noite” conta com um velho convidado: Rupert Khouri, aka Walter Hugo. É ele quem opera a câmera e assina como Rupert, para disfarçar o controle que exercia em cada aspecto de seus filmes. Rupert poderia ser um primo distante, mas não. Era o próprio Kaiser.

Outro aspecto recorrente na obra khouriana está nos atores. Selma Egrei contracena com Lilian Lemmertz (Raquel). Raquel contrata Ana para cuidar dos filhos (Carolina e Marcelinho), enquanto o marido (Fernando Amaral) se refastela em uma poltrona. Zonzo de uísque, na sublime aversão a tudo o que seja compromisso de esposo ou de pai. Lemmertz encarna mais uma vez o ideal feminino: soberano, reinante, mas agora anestesiada pelo compromisso de ir a uma festinha. Em “O Desejo” (1975), o mesmo trisal Lemmertz-Amaral-Egrei leva ao extremo a vontade de se possuírem sob o mesmo teto – nesse caso, com a alta voltagem do sexo e das histerias irrealizáveis.

“Corpo Ardente” (1966) usou o “trono de pedra”, o lugar aonde a mãe de Marcelo coroa o filho. Já o totem de “O Anjo da Noite” é imenso e concentra boa parte da trama: a casa de Petrópolis. A mansão é o personagem-central, sem ela não existiriam as explosões de Marcelinho, de Ana ou de Augusto (Eliezer Gomes). Tornam-se cativos em uma vigília de mil eons, sentem o abafamento no cangote (“Hic Habitat Numen”, diz o letreiro inicial).

E não demora muito para o espectador perceber o formato da casa. Lembra um caixão, claustrofóbico, com estátuas de anjos que seguram espadas e asas, típicos da arte tumular. Rupert Khouri rebaixou o teto de propósito com a câmera e, no canto de cada cena, vemos algumas daquelas imagens, como se os entes inanimados conjurassem para a perdição de Ana e de Augusto.

O homem não gosta do que vê. E diz que a casa “é bonita, mas não é amiga da gente”. Armas aparecem nas paredes: uma espingarda aponta para a cabeça de Ana. Na janela em frente à mansão, as heras formam uma cruz. As crianças tomam remédios, sabe-se lá por quê. A crueldade infantil granjeia: principalmente Marcelinho, que manipula Ana.

Augusto sofre da síndrome de isolamento. O adorável Jack de “O Iluminado” (1980) sentiu o frio e as neves do Colorado. Anos antes, “O Anjo da Noite” teve a lua e as árvores; o expressionismo na escuridão. O surdo ressoando agora pelo jardim, lembrando os primeiros acordes de “Coração Materno”, na versão do LP “Tropicália” (1968), produzido por Rogério Duprat. Duprat que, aliás, é responsável pela trilha sonora do filme, com outro companheiro de longa data na obra de Khouri: Franz Peter Schubert.

Criados negros e fleugmáticos convivem com criados brancos. Em “As Filhas do Fogo” (1978), os papéis espectrais couberam aos louros de sítio, no sul do Brasil. A divisão de tarefas é, portanto, democrática. No sul, os caipiras descendentes de alemães. Na serra fluminense, o caldeirão de mulatos, negros e brancos.

Sob esse aspecto, convém lembrar que “O Anjo da Noite” recebeu análises cretinas, atribuindo a escolha de Eliezer Gomes a um ato racista do diretor. Ora bolas, Augusto não é apenas mais-um-malfeitor-negro. Não se trata de type casting. Augusto é um demente, um domado pela casa e pela quebra de lógica que deixa a trama suspensa do chão.

Mesmo porque a violência de “O Anjo da Noite” é instintiva. E todo cinéfilo, já iniciado nos mistérios khourianos, sabe que o diretor deixava pistas no meio do caminho, em cada filme. Ana consulta obcecadamente o livro de Carl Gustav Jung – o suíço que falava em anima, a inscrição insculpida na casa de “As Deusas” (1972). A garota começa a sublinhar os parágrafos e quase caímos para trás: “O encontro com o dragão pode realizar-se de diferentes modos, mas o essencial é que o encontremos”.

É óbvio que o dragão (o mal, a morte, a expiação) era pressentido e até mesmo querido pela garota. Daí deitar-se no chão, com as mãos (de novo elas) sobre o tapete. “O Anjo da Noite” fala de um processo existencial, que pode servir de parábola para o encontro perante ele: o Desconhecido. O elemento desestabilizador, que chega nas matas de “As Filhas do Fogo” como viajante pecaminoso. No “O Anjo da Noite”, é uma aparição, um Eliezer Gomes, de olhos acesos e esbugalhados.

Por ser um homenzarrão de quase três metros de altura (o Tião Medonho de “Assalto ao Trem Pagador”), Eliezer contrapõe-se perfeitamente ao estilo pré-rafaelita de Egrei. Ana submerge na banheira, como a Ofélia de John Everett Millais. Augusto aparece agitando a roupa negra de vigia, qual asa de morcego. “A Consciência Humana é este morcego!/ Por mais que a gente faça, à noite, ele entra/ Imperceptivelmente em nosso quarto!” Augusto dos Anjos também ajuda a matar a charada.

O roteiro, “inspirado numa ideia de Fernando César Ferreira e trechos de uma história de Hugo Conrado”, convida a uma visão corajosa da transcendência. Em plenos folguedos setentistas, Walter Hugo enxotou os clichês, colocou um homem negro atormentado, criança apontando metralhadora de brinquedo para a lua e uma babá suburbana que estuda psicologia.

No filme, Khouri apostou todas as fichas na visão de autor e ficou rondando, assim como Augusto, o resultado do crime: o de pensar, o de permanecer íntegro a si mesmo. Até o dia em que finalmente deu o último suspiro e habitou a mansão do nada, talvez perdida no quintal de “O Anjo da Noite”, no meio da terra que Ana escolheu para se deitar, pela última vez.

8 comentários:

Ailton Monteiro disse...

Sensacional, Andrea! Um texto que faz jus ao filme. E muita coisa que eu deixei passar e que vou prestar mais atenção na revisão.

Andrea Ormond disse...

Obrigada, Ailton! Está aí um dos momentos mais inspirados (e importantes) do Khouri, indo para o horror mas mantendo a linha base de questões vistas em outros filmes dele.

Adilson Marcelino disse...

Que maravilha, querida.
Dizem que a Elis Regina canta vez melhor. É como o nosso Khouri, cada vez mais fundamental.
Beijo, Adilson

Andrea Ormond disse...

Adilson, "O Anjo da Noite" é um filme riquíssimo, o texto precisava tocar em vários aspectos. O Khouri tem essa característica mesmo, de ser um fenômeno, um OVNI fundamental no cinema brasileiro. Beijo, querido

Ricardo ( Highlander ). disse...


Excelente filme & Selma Egrei no Auge de Sua Beleza.

Anônimo disse...

Andrea, mais uma excelente análise de um dos melhores exemplares de Khouri. Aproveito para parabenizar pela postagem de "Amor, Palavra prostituta", do saudoso Carlão. Uma belíssima sequência de textos do Estranho Encontro.
Márcio/MG

ADEMAR AMANCIO disse...

Não conheço o filme,só posso dizer que você escreve cada vez melhor.

Anônimo disse...

andrea,
seu blog é excelente.

acompanho os textos há muito tempo, quando eu me 'iniciava' no cinema nacional.
descobri textos, filmes, referências. parabéns pelo trabalho e pelo resgate ao nosso cinema nacional - atualmente tão desvalorizado, mau visto.
abraço!