segunda-feira, agosto 25, 2014

Na Boca do Mundo


"Um filho crioulo. Ela faria o máximo para esconder isso."

Escrever sobre um filme de diretor negro no Brasil sempre esbarra em questão política. E, questões políticas, por mais nobres que sejam, sempre esbarram em conveniências. Naquilo que Hanna Arendt defronta entre realidade e "verdade aceitável".

Um bom exemplo é Afranio Vital, diretor negro que dirigiu três longas-metragens e inúmeros curtas, além de um trabalho profícuo como técnico nos anos 70 e 80. Com exceção deste blog, do livro de João Carlos Rodrigues e da revista Zingu!, para a história Afranio não existe. Está vivo e ativo, porém não encontramos referência sobre ele. Não me perguntem a razão para tanta imbecilidade, eu não saberia responder.

Melhor sorte tem Antonio Pitanga e o único longa-metragem que dirigiu, "Na Boca do Mundo" (1978). Um filme notável, diga-se de passagem. Roteiro de Leopoldo Serran, ambientado em Atafona – distrito de São João da Barra, litoral fluminense. Produção da Lente Filmes, de Zakhia Elias e Noilton Nunes, a cara do cinema carioca do final dos anos 70. Tudo conspirou para Pitanga, ator em mais de cinquenta títulos, realizar uma bela estreia. E ele conseguiu. 

Antônio (Pitanga) é um pescador que deseja uma vida melhor, ao lado de Terezinha (Sibele Rúbia), sua noiva que vende caranguejos na beira da estrada. Juntam dinheiro, Antonio faz um curso de mecânico por correspondência. Querem ir embora para o Rio. Um dia, chega ao local a quarentona Clarisse (Norma Bengell), e João se envolve com ela.

Terezinha, a noiva, é forte e ambiciosa, além de ter alergia a caranguejos. Tratando-se de mulher arrojada, não se importa muito em ver o seu afiançado na cama com outra. Começa a incentivar o caso, para que João arranque dinheiro de Clarisse. E que a engravide, gerando um filho mulato, que seria vergonha para a madame rica. Até na hora de se entregar a João, Terezinha é calculista e agressiva: "É isso que você quer, né? É isso que você quer, seu filho da puta?", protege a própria virgindade com a boca suja. Enquanto João, nas palavras de Clarisse, representa um "bom selvagem".

A borderline Clarisse pede a Antonio que a descreva, na tentativa de construir sua personalidade fragmentada com o olhar do outro. "Sua pele é de areia, seus olhos de mar", ele responde. Bengell ainda era boa pra dedéu, Sibele Rúbia, um achado de mulata, e o tonto pescador estava bem servido no meio daquelas duas. Ou achava que estava. 

A verdade é que o meio provinciano e opressor exigia algo mais do que a determinação molenga, melancólica, do wannabe de mecânico. A construção do roteiro é cínica o bastante para – citando Jorge Ben, autor de “Amante Amado”, trilha do filme – demonstrar a máxima “quem não pode se arrebenta”. Chegamos a vislumbrar certa lesbiandade psicopata na cena final, de cumplicidade entre as mulheres. Leopoldo Serran não escreveria aquele encerramento à toa. 

Trabalhando a questão racial de uma forma direta, até mesmo ingênua, o filme rende horrores no psicologismo bem construído das personagens. Manipular o homem fraco não era propriamente um hábito da patriarcal sociedade brasileira da época. E sabemos, desde o início, que João segura o elo mais sensível da cadeia. Clarisse traz a força do poder econômico; Terezinha guarda o espírito desprendido, forte. E João? Ele não é nada. Na melhor das hipóteses, um pênis auxiliar às pretensões da noiva esperta, alpinista social.

Lançado em janeiro de 79, pode ter confundido alguns espectadores pois meses antes Gal Costa apresentava o show “Com a Boca no Mundo”, sem qualquer relação com a produção. Mas era um termo da moda, usado até em reclame da Bemoreira Ducal. “Na Boca do Mundo” fez carreira na dolce vita do Rio, exibido em sessões fechadas no Hotel Méridien e propiciando ao diretor uma janela aberta como intelectual pensante. A exemplo do genial Waldir Onofre, Antonio Pitanga não dirigiu outros filmes. Seu olhar poderia acrescentar muito. Porém cineastas negros são incômodos no Brasil. Ainda hoje, em pleno século XXI. 

9 comentários:

Marco Antonio Santos Freitas Santos Freitas disse...

Ouvi falalr desse filme, pela primeira vez, há uns 12 anos (acho que foi conversando com o grande Jorge Durán que foi Assistente no filme), para 90 mas nunca consegui vê-lo...a trama paquera um certo ´noir tropical´, por acaso (com as duas mulheres fazendo esse MindGame ou MindF*ck com o protagonista)?
Vai para um certo tom meio obsessivo, meio Premingeriano ou fica mais para a languidez e o ´clima ´Deixa a vida me levar´ tão comum em laguns desfechos da é´poca>

Afranio Vital disse...

A questão racial no Brasil permanece a mesma dos anos 40, 50 e 60.Atualmente chegamos em um ponto surreal em que foi necessário criar uma política de cotas pois senão não teríamos dentistas, médicos e engenheiros negros;só existiriam dentro do apadrinhamento, como sucedeu com os irmãos Rebouças, e que terminou por levá-los ao degredo e ao suicídio.No caso da arte então o problema é mais sério. A reserva de mercado dos anos 70 permitiu que as diversas minorias se manifestassem e Mojica Marins,Waldir Onofre, Pitanga Sternheim, Reichenbach, Khouri e outros dessem seu recado. Isso não mais existe. A situação do cinema brasileiro atual é catastrófica. Até mesmo para divulgar nossa existência como cineastas e artistas somos cerceados pela patrulha cibernética que serve a interesses excusos e quando não, do capital estrangeiro. Interesses esses que transformam seres humanos em consumidores de produtos artísticos insinceros, descartáveis e imbecís.Essa é a água onde nadamos. Fora do esquema do negro servil, do ciclo do " Pai João " nada no momento é possível: esse esquema é que prolifera nas faculdades, nas emissoras de televisão etc. Essas são, a meu ver as linhas gerais da questão do negro,da arte e das ditas minorias no país. O pior é que se não nos vermos na tela e na vida seremos dizimados.O país escolheu a viela do suicídio. Eu mesmo por vezes penso que não existo pois sou execrado e ridicularizado em minha possibilidade de existir. Isso sem falar da situação que vive Waldir Onofre, do massacre e morte de Victor Lima Barreto, do prematuro assassinato cultural do Glauber pós Idade da Terra e também do limbo em que se encontra a herança de Walter Hugo Khouri.É o que penso, e creio que não estou equivocado.

Adilson Marcelino disse...

Querida, como é bom voltar a ler o Estranho Encontro amiúde.
E, como sempre, mirando sua lente para questões urgentes.
Beijos

Andrea Ormond disse...

Marco, neste caso demos sorte: o filme está no Youtube, você pode conferir na fonte.

Afrânio, a questão das cotas é complicadíssima e existem umas distorções graves, ainda mais em um país mestiço como o Brasil. Se fossem WASPs de um lado e negros de outro, o apartheid brasileiro seria mais fácil de ser combatido. Não é, é bem perverso: temos aí o mito do "homem brasileiro cordial", por exemplo. "A mão que afaga é a mesma que apedreja", quer coisa mais cruel que isso? A cordialidade vai até certo ponto e aí surge esse prato feito dos execrados que você bem comentou.

Adilson querido, tenho outros textos no forno, vou postando em breve. Beijo

Marco Antonio Santos Freitas Santos Freitas disse...

Legal, vou conferir.
Valeu.

Carlos G. Q. disse...

O filme está também em torrent.
Andrea, mais uma vez, obrigado pelo teu blog. Sério, últimamente tenho feito muitas descobertas de cinema brasileiro graças a você. Para mim é a primeira fonte de informação sobre o assunto.

Por sinal, você me recomenda o filme de Pereira dos Santos 'Mandacaru Vermelho', 1961? Localizei-o ontem.
Também o baiano 'A Grande Feira', do mesmo ano, senão lembro mal. Filme que, ao meu ver, promete. Um outro que tenho pendente e me enviaram ao correio é 'Viagem Aos Seios de Duília', dirigido pelo argentino Christensen.

Bom, saudações.

(Sou aquele espanhol que um dia te perguntou a respeito de 'Cara a Cara' de Bressane).

Andrea Ormond disse...

Carlos, me lembro de termos conversado sobre o "Cara a Cara". Fico particularmente feliz de ver como o blog está trazendo novas cores para o seu gosto pelo cinema brasileiro. Entre os filmes que você citou, corra para assistir logo ao "Viagem aos seios de Duília". Se der, leia na sequência o conto do Aníbal Machado (que deu origem ao filme). É um dos meus favoritos na literatura nacional. Um abraço

Carlos C. Q. disse...

Assisti aos três filmes.

'Viagem...' (tem cópia circulando em sites como SMz) me surpreendeu. Ao meu ver, é o melhor filme de Christensen (pelo menos dos que eu vi). Muito obrigado pela recomendação de Machado, Andrea (ainda que eu já tivesse me interessado antes de ler sua resposta, logo depois de assistir ao filme). O caso é que se falarmos em termos estruturais, 'Viagem...' me pareceu uma obra-prima, fazendo com que me interesasse com o conto no qual se baseiou.

Não gostei, no entanto, de 'A Grande Feira'.

Quanto a 'Mandacaru...', acho que é um filme irregular, talvez tenha sido, em parte, improvisado (li que outro diretor tinha começado o projeto, ou seja, que foi o típico filme que nós chamamos "de encargo"), mas visualmente é uma obra da qual há muito a dizer (toda a composição de planos, os enquadres..., que fazem lembrar a estética dos faroestes mexicanos...)

E bom, com certeza seu blog é paragem obrigatória para a gente se adentrar no cinema brasileiro. Não desista. E por sinal, parabéns pelo livro.

Anônimo disse...

... com que me interessasse por...

Escrevo rápido demais e às vezes as preposições do português acabam me traindo.

Até mais.