quarta-feira, maio 01, 2013

Iracema, Uma Transa Amazônica


Em “Vidas Secas” (1963), o barulho de um carro de boi deliciou gerações. Foi parar na cerveja amiga dos bares, nas cinematecas, no roufenho disse-me-disse dos festivais. Nelson Pereira dos Santos colocou o ruído nos créditos, antes mesmo da ação. Ouve-se, percebe-se, aqui está. Vamos ao flagelo da seca nordestina, mas primeiro com o som que lhe é tão característico.

Onze anos depois, no início de “Iracema, Uma Transa Amazônica” (1974), ouvimos o barulho do motor. De um barco, que desce o rio. Gente dentro, gente fora. Iracema (Edna de Cassia) aparece e brota o clássico espontâneo dos barbudos, udrigrudis e da flora que curtiu a interdição social de outra maneira.

Para o Brasil dos 70, a revolução não estava em Graciliano Ramos. Estava na Santíssima Trindade do sectarismo político, da criatividade sexual e das ralas cotas de alucinógenos. Algo como ler o camarada Mao tomando anticoncepcionais e queimando a macaxeira.

Nesse sentido, o título do filme merece atenção: “transa” era gíria comum e não significava apenas o ato sexual. É aférese de “transação”. A Amazônia, por sua vez, batia ponto no governo que abria estradas qual castor alucinado. Com esse subtexto, “Iracema, Uma Transa Amazônica” recebeu outro: a censura. E ali mofou, virou contrabando, experimentou as tórridas exibições clandestinas e a presença do elemento alienígena. A ZDF, produtora alemã, bancou o projeto.

Grande parte das opiniões sobre “Iracema, Uma Transa Amazônica” resvalam na suposta qualidade de o filme ser a-exposição-nua-e-crua-do-nosso-apartheid-racial. A índia do país pobre, dominado pela ditadura militar, que apostava no país grande. Sob o retrocesso de uma análise canhestra e minimalista, “Iracema” é a redenção das misérias nacionais. E, para tecer loas ao fato de ter sido censurado, muitas vezes esquece-se de que foi produzido pelos “europeus colonizadores”. Na intelectualidade brasileira, quando necessário os estrangeiros são absolvidos e despem-se da capa de zebus do mal, tão típicas da nossa triste epifania.

Dirigido por Jorge Bodanzky e Orlando Senna, o filme traz aspectos de momentos anteriores dos dois. Em 1970, Jorge Bodanzky já havia fotografado “Gamal, o Delírio do Sexo” (1968), de João Batista de Andrade. Era a marginália do cinema paulistano: texto aberto, câmera livre – características que, erradamente, atribuem-se apenas a “Iracema”. Orlando Senna participou do surto baiano em “A Grande Feira” (1961), como ator. Naturalista e engagé, colega de Glauber Rocha, repete o ofício em “Iracema”. Esbelto que só, atua como o vendedor de mulheres. Escreve o roteiro e parte com Bodanzky em uma kombi, desbravando as matas da Belém-Brasília.

Chegam ao Mercado Ver-o-Peso, procuram uma protagonista. Encontram Edna de Cássia, a garota que descerá do mítico barco. Iracema não é a índia carnuda e de belos seios, interpretada por Helena Ramos na adaptação de José de Alencar (“Iracema”, 1979). Segundo Bodanzky, o nome “Iracema” foi escolhido por ser comum nas bibocas sórdidas, na Belém proibida. A dupla de diretores quis fazer do filme um documentário aberto. Ficção e realidade bailam soltas, ao léu.

Na prática, o elemento ficcional dependerá (e muito) da capacidade de improvisação de Conceição Penna e Paulo César Pereio (que Bodanzky já conhecera em “Gamal”). Os atores aguentam o tranco e tentam dar espaço para a “pureza” de Edna de Cássia. Em alguns momentos outras não-atrizes roubam a cena. Duas prostitutas abraçam Pereio, riem, gargalham, botam as tetas para fora, tisnadas de uma euforia doentia, crentes que estão arrochando um caminhoneiro gaúcho.

Tião Brasil Grande (Pereio) é conservador, malandro, debocha dos homens “mirrados” da região Norte. Curioso que os capiaus discordam de Tião, mas são tão conservadores quanto ele. Um anotador fala sobre a “Mãe nação” e estão de comum acordo. O Brasil é a obsessão de Tião. Como se fosse o boçal citado por Rogério Sganzerla ou o otário-mor, que sangra as estradas do país, rouba gado e compra madeira ilegal.

Tião funciona como o contraponto de Iracema. De um lado a estrada (Tião); de outro, o rio (Iracema). Vivem paralelamente até que se encontram e o primeiro abusa do segundo. Isto porque Iracema desce do barco, vai a um prostíbulo e se amarra no homem. Tião, porém, a joga no meio da estrada. A comparsa (Conceição Senna) incute na menina o sonho de viajar. Não consegue. Iracema não quer ser costureira, não quer aprender outra coisa. Prefere o “vício”, mesmo depois do ritual de purificação do Círio de Nazaré. Está corrompida, simples assim. Como o índio comprando cachaça do sistema barracão.

Na história do cinema brasileiro, outros filmes também receberam o status de tabu. Entre eles, “Limite” (de Mário Peixoto) e “O Despertar da Besta/ Ritual dos Sádicos” de José Mojica Marins. No entanto, a aura de proibição imposta pela censura não altera as qualidades intrínsecas de cada um. “Iracema” não alcança, por exemplo, o grau de observação de “Perdida” (1975) ou “Lilian M.: Relatório Confidencial” (1975). A transição entre campo e cidade é melhor expressa no lirismo de Carlos Alberto Prates (“Perdida”) e no desbunde de Reichenbach (“Lilian M”).

O que seria bondade em “Marvada Carne” (1985), no interior de São Paulo, vira denúncia em “Iracema”, no interior de Belém. As tomadas bruscas lembram um David Nasser hardcore, escrevendo com a câmera no colo, subindo inquieto as ribeirinhas. A ideologia é oposta, o frenesi é semelhante. A certa hora, o traficante de bóias-frias olha para o grupo de escravos e lança a frase: “[Com esses aí,] gasto é só farinha e carne seca. Se não quiser, levo eles para o japonês”. O receptor aceita, fecha-se o negócio. Coube a “Iracema, Uma Transa Amazônica” tatear o tal Brasil grande, a melancolia da garota abandonada que se replica na multidão.

8 comentários:

André Setaro disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
André Setaro disse...

O fato do filme ter sido censurado ajudou muito na sua valorização, mas, a rigor, não possui o vigor documentarista como se propagou. Gostei muito, e assinaria embaixo o que você escreveu:

"Sob o retrocesso de uma análise canhestra e minimalista, “Iracema” é a redenção das misérias nacionais. E, para tecer loas ao fato de ter sido censurado, muitas vezes esquece-se de que foi produzido pelos “europeus colonizadores”. Na intelectualidade brasileira, quando necessário os estrangeiros são absolvidos e despem-se da capa de zebus do mal, tão típicas da nossa triste epifania."

ADEMAR AMANCIO disse...

Ótima resenha.Ainda bem que você não abandonou o blog.Estou sempre relendo alguma coisa.

Anônimo disse...

Já eu adoro esse filme.
Não revi, mas guardo na lembrança o impacto quando assisti.
Beijo, querida.
Adilson

touron disse...

Adoro esse filme, ja vi algumas vezes, e recentemente vi o filme novamente, mas dessa vez assisti a versão com o comentarios do bodanzky ao fundo, acho incrivel a narração dele, cena a cena, falando das dificuldades e dos prazer da filmagem. Agora falando sobre a obra, é impressionante como após 40 anos o tema abordado continua tão atual, a prostituição e o desmatamento parecem uma doença incravada no DNA daquele lugar e daquele povo, infelizmente.
Parabens pelo texto Andrea.
Bjos
Paulo Touron

Andrea Ormond disse...

É a velha história, Setaro. A crítica não pode se contentar apenas com o factóide. E nem pode aceitar análises que não contextualizem o filme. O "Iracema" exemplifica algumas contradições (não comentadas) da nossa cultura. Neste caso, o arquétipo do "europeu colonizador" vira parceiro, é absolvido.

Olá, Ademar, tem sempre post novo, fica de olho.

Adilson, o "Iracema" tem um aura que se encaixa feito luva no "Mulheres do Cinema Brasileiro". Acho que é por aí que vem o impacto do filme para você. Beijão, querido

Obrigada, Paulo. Também acho interessante esse recurso das versões dos diretores. Ouvir os comentários ao mesmo tempo, como se fosse um documentário, uma história oral dentro do filme. Me pergunto o grau de dificuldade que exitiria em cruzar as informações de entrevistas no MIS (diretores/técnicos/atores já falecidos) com filmes antigos. Está aí um biscoito fino, até para se entender melhor a região amazônica que você citou.

Marco Antonio Santos Freitas Santos Freitas disse...

Há anos me pergunto onde anadará a estrela desse filme (ouvi falar há uns 20 anos q ela fazia ´biscates sexuais´ quando foi escolhida para o longa...teria voltado à Nada Fácil Vida de Mulher de Vida Fácil?-quem inventou essa expressão foi algum p*to, não um FDP)...outro filme q poderia ter sido citado do mesmo pessoal q realizou esse é o tbm semidocumental OS MUCKER, q tbm conta com o Pereio num papel (só q pequenino).
Ótimo texto.

ADEMAR AMANCIO disse...

Dizem que a menina era virgem e não p...
Agora,o Peréio como galã do cinema nacional,só rindo.
Aliás,nesse quesito-galã é melhor nem comentar.