segunda-feira, janeiro 28, 2013

Como Nascem os Anjos


Terminada a Copa de 1994, a esquadra alucinada pegou o avião rumo ao Brasil. Entre os destaques, o meio-campista Zinho, o “enceradeira”, mestre na arte de driblar-se a si mesmo. Os brasileiros começavam a recuperar o prestígio lusco-fusco do campeonato mundial. Párias por tantos anos, esquecidos, chupavam vento desde a era Médici, quando em 1970 o capitão Carlos Alberto balançou a taça de ouro no ar.

Desde aquele julho de 94 até a suposta “Retomada do cinema brasileiro”, faltava pouco. Em 1995 estrearia “Carlota Joaquina, a Princesa do Brazil”, logo transformado no factoide da tal era. O slogan de “Retomada”, criado pela historiografia oficial, é ardiloso. Geralmente colocam o início dele na quebra da Embrafilme (1990), evento que teria soprado nuvens de enxofre no mundo. Esquecem-se que boa parte do cinema brasileiro sempre foi criada por gente à margem da Embra. E que simplesmente assistiu de camarote à socialização do caos que já sofriam há tempos.

“Como Nascem Os Anjos” (1996) é fruto desse umbral sociológico. A Embra como a grande mãe morta e outras simplificações. Exemplo: o deslumbre com o meio externo. Imagino que se fosse realizado em 2013, “Como Nascem Os Anjos” hesitaria em colocar um casal de norte-americanos na radical posição de gente boa, vitimizada pela violência brasileira.

O advogado é frio, tranquilo, didático. A filha, nervosa e altiva. Atualmente existe um cinismo “internacionalizante”. Apenas filmes de tosquíssimas intenções – e este não é o caso de “Como Nascem Os Anjos” – o desprezam. Nos clichês do cinema brasileiro contemporâneo percebe-se que a luta de classes voltou a ser interna: pobres e ricos nacionais, favelados versus moradores de condomínios e toda a praga de apelações.

Murilo Salles acabara de finalizar “Todos Os Corações do Mundo/Two Billion Hearts” (1995), documentário sobre a epopeia canarinha de 94. O anterior “Faca de Dois Gumes” (1989) não faz jus ao brilhantismo de “Nunca Fomos Tão Felizes” (1984), adaptação do conto “Alguma Coisa Urgentemente”, de João Gilberto Noll. Em “Como Nascem Os Anjos”, Murilo traz de volta, com pompa e galhardia, a zona sul do Rio de Janeiro. Ao invés de Copacabana, aparece o morro Dona Marta em Botafogo e dali a mansão no início da zona oeste, em São Conrado.

Geograficamente, o diretor Murilo Salles está em casa. Superada as deficiências das atuações, o filme parte de um pressuposto original e pouco utilizado no cinema brasileiro: a violência e o ludismo infantil.

Branquinha (Priscilla Assum) e Japa (Silvio Guindane) têm cerca de 10 anos de idade. Moram na favela. Japa quer ser jogador de basquete. Branquinha se diz mulher de Maguila (André Mattos), um beócio muito mais velho, que acabou de assassinar o chefe da boca. Maguila, Japa e Branquinha mantêm em cativeiro William (Larry Pine) e Julie (Ryan Massey). Ricaços, pai e filha, patrões da Conceição (Maria Sílvia) e donos de uma casa nas franjas de outra favela, a da Rocinha – uma vez mais, o quesito geográfico dando as caras no filme.

A inteligência de “Como Nascem Os Anjos” está em colocar, nessa bisonha Faixa de Gaza, os dois garotos. O roteiro, faceiro que só, faz com que Maguila habilmente leve um tiro e saia de cena. Vira um adorno de Branquinha e Japa, um coadjuvante da falta de senso que impera no local: o imbecil e duas crianças cometendo o crime que não poderiam cometer.

Japa e Branquinha comandam o ataque. São levianos, parecem que estão jogando um videogame sobre a invasão ou que poderiam comer chocolate enquanto dão pipocos a esmo. Barbarizam, mas preservam a ternura, pela total falta de consciência. Estão dentro e fora dos eventos, pois do nada se dissociam deles e vão morar nas nuvens da alienação infanto juvenil.

É assim que montam planos de fuga e táticas absurdas. Julie usa um vestido de gala para a suposta entrevista à televisão. Japa dança break na penumbra, em uma das cenas mais exemplificadoras da ingenuidade na barbárie. As câmeras piscam, o garoto virou performer. Coincidentemente, em “Um Céu de Estrelas”, do mesmo ano, a metalinguística dos repórteres e da cobertura policial também reina durante o filme. No entanto, em “Como Nascem Os Anjos”, o circo eletrônico é quase cômico, sem a agressividade do outro.

Em um aspecto, o filme de Murilo Salles é absolutamente fundamental: Branquinha. Criatura das mais delirantes do cinema brasileiro. Erótica, sapatona, manipuladora, protetora, meiga. Os anjinhos têm sexo, são perversos! Mais sutil ainda: é Branquinha e não Japa quem se interessa por Julie. Na idade em que os garotos jogam bola e as meninas supõem-se maduras, “Como Nascem Os Anjos” finca as patas na maldade e na relação doentia do triângulo Maguila-Japa-Branquinha.

Exatamente por isto, vão daí os méritos. “Como Nascem Os Anjos” chutou as caretices das “mensagens sociais”. Não fala de modo cansativo sobre “o meio que cria bandidos” ou o capitalismo cruel e selvagem. Escorrega na clicherização dos ianques, com cara de Ivy League, mas entende que a  aberração pode surgir de onde menos se espera. Dentro dos garotos, até dentro dos gringos, em seu profano desprezo e perplexidade. Um filme curioso, pouco visto, quase oculto, a ser bastante notado.

9 comentários:

Daniel P disse...

Andrea, posso estar errado mas achei que vc deu uma alfinetada nesta crítica ao atual O Som ao Redor. Errei?

Paulo Blue disse...

Vc fala na Embra, hoje não vivemos na produção artística um templo de vendilhões para o governo federal? claro com exceções.

Andrea Ormond disse...

Sabe que nem foi, Daniel? Não pensei nisso na hora, apesar de não ser muito entusiasta desse hype "O Som Ao Redor". Aliás, os aspectos que me interessaram no filme não vi ninguém até agora comentar. Pretendo escrever sobre isso.

Paulo, sempre vão existir e a produção nacional não vai se restringir a eles. O problema em relação à Embrafilme era o fetiche, que a colocava como única fonte existente e viável na época. Houve gênios produzidos pela Embra e houve gênios fora dela.

Sergio Andrade disse...

Excelente texto, Andréa. Gosto bastante do filme. E fico contente em saber que não sou o único que não se entusiasmou com o hype em torno do Som ao Redor.

Anônimo disse...

Tenho este filme em casa, mas aind não parei para vê-lo. Cheguei a assitir um outro filme da atriz Priscila Assum que se chama Cafuné (2005)também passado no Rio e que mostra o amor entre duas pessoas de classes diferente que enfentam problemas de acordo com suas idades, na fase da adolescência para a idade adulta, e junto com elas vem a responsabilidade, com destaque também para a participação de carlo Mossy. Sobre a Embrafilmes, não posso dizer muito, pois não é da minha época, pelo menos, existem bons filmes que ela fez. Entrando neste parâmetro, hoje a Globofilmes é uma das principais produtoras que produzem filmes. Infelizmente, na minha opinião, a cada 10 filmes que ela produz, no mínimo 1 e no máximo 2 chegam a prestar. Oresto é tudo uma porcaria e é cheio daquele aspecto global do tipo novelesco. Os melhores filmes são o de produtoras desconhecidas, ou seja, os chamados filmes alternativos. Hoje em dia, o cinema brasileiro está assim Andreia. Você citou o carlota Joaquina, mas não acho esse filme todo, pois tem filmes melhores passados na década de 90, como este filme citado, O que é isso companheiro, Lamarca e tantos outros. Já que estamos falando em anos 90, você bem que poderia postar sobre o filme O Quatrilho ou o Guarani. Sendo que também sugestões como A Lira do Delírio, Tropclip e Ato de Violência seriam bem vindas. Até mais Andreia.

João Carlos Rodrigues disse...

Bela crítica desse filme em tom menor, mas nem por isso menor. Passa muito no Canal Brasil para quem não viu e quer ver.

Andrea Ormond disse...

Pois é, Sergio, não estou nessa onda toda. Considero "O Som Ao Redor" um bom filme, mas longe de ser a salvação da lavoura rs

Anônimo, na próxima vez, assina. Fiquei curiosa para saber quem era o autor da missiva. Até mais, um abraço!

Obrigada, João Carlos. E deixemos a dica do Canal Brasil para o povo que quiser conferir o filme.

Renan Esteves disse...

Eu sou o autor do comentário 5, postei assim porque no lugar onde estava não tinha acesso a conta do gmail.

Andrea Ormond disse...

Valeu, Renan!