terça-feira, novembro 01, 2016

O Cinema Falado


No dia 22 de novembro de 1986, um sábado, o Hotel Nacional no Rio de Janeiro fervia. Já passava das onze horas e a estreia do primeiro longa-metragem do cantor e compositor Caetano Veloso estava marcada para a meia-noite, na Sala Glauber Rocha, que ficava no Centro de Convenções do hotel. A exibição fazia parte do III Fest Rio e era aguardada com grande expectativa. 1986 havia sido mágico para Caetano: lançara o disco “Totalmente Demais”, gravado ao vivo no Golden Room do Copacabana Palace, e apresentara na Rede Globo uma série de programas ao lado de Chico Buarque. Era um Caetano ainda jovem (44 anos em agosto), frequentador da Pizzaria Guanabara, e que adotara durante alguns meses um charmoso bigode.

O diretor, os participantes do filme, todo o beautiful people carioca, não imaginavam o que estava por vir. Cabiam quase 2 mil pessoas na enorme sala; a movimentação de entrada e saída gerava um bafo quente e ominoso. Iniciada a sessão com atraso, as primeiras cenas de “O Cinema Falado” (1986) pareceram provocar certa angústia nos espectadores. A maioria resistiu firme às longas sequências de diálogos e monólogos, aguardando o que estava por vir. A questão é que nada veio: o filme era aquilo mesmo. 

Logo o cineasta Arthur Omar – diretor de inúmeros curtas e do longa-metragem “Triste Trópico” (1974) – começou a gritar: “Isso é uma porcaria, vanguarda de cartão-postal! Chega de mistificação!”. Ouviram-se novos brados, de anônimos, inclusive alguns de “Viva Glauber Rocha!” e “Isso é uma egotrip!”. 

A sessão terminou debaixo de gritaria, que prosseguiu no bar do hotel. Omar definiria sua “participação” como necessária para “dizer que tudo aquilo era muito ruim, antes que a imprensa partisse para a mistificação”. Vários partiram em defesa de Caetano. Júlio Bressane disse que “A obra de Caetano é mental. A plateia é pré-mental”. Arnaldo Jabor comparou o filme ao disco “Araçá Azul”. E a atriz Fernanda Torres, então com 21 anos, o definiu sucintamente: “Gente falando, só isso. Muita gente falando”. 

A ideia de fazer um filme de quase duas horas sobre “muita gente falando” surgiu para Caetano da observação de que nos filmes brasileiros, principalmente do Cinema Novo, alguns discursos adquiriam uma forma literária. E, a partir de uma entrevista de Jean-Luc Godard, na qual o diretor afirmava que “um filme poderia constituir-se apenas de alguém contando uma história na frente da câmera”, consolidou o projeto. Para o título, inspirou-se em um verso da música “Não Tem Tradução”, de Noel Rosa: “O cinema falado é o grande culpado da transformação…”.

Essa é a urdidura que Caetano repete há 30 anos. E, como quase tudo em Caetano Veloso, não temos motivos para duvidar. Digo isso com ironia, considerando a enorme inteligência do artista, que foi capaz de elaborar a melhor defesa até hoje sobre o próprio filme. Se analisarmos minuciosamente “O Cinema Falado”, vamos concluir que sua pretensão de mostrar pessoas discursando ou conversando na frente da câmera realiza-se plenamente. E que, ao explicitar a questão literária ao limite na fala cinematográfica, ele obtém um belíssimo experimento. 

Em 1986, poucas pessoas entenderam assim. Filmado em 21 dias, custando em valores de hoje cerca de 1 milhão e 500 mil reais, não foi uma produção barata. E com todo o suspense que causou, era fácil adivinhar que, não sendo de fácil digestão, sofreria críticas funestas. Um bom motivo para o incômodo reside também no fato de Caetano viver comprando polêmicas – inclusive no Fest Rio do ano anterior, quando protestara a favor de “Je Vous Salue, Marie” (1985). Justamente na sua vez, em que abria um enorme telhado de vidro, era óbvio que iriam atacá-lo. Por qualquer coisa. 

Como toda intelligentsia que se preze, a de 1986 tinha dogmas: entre eles o de que o cinema brasileiro, salvo exceções, era um projeto que estava dando errado. Havia quem acreditasse que o caminho seria filmar em inglês, ou simplesmente abandonar o barco. Engolir Caetano, livre, leve e solto, dirigindo um longa-metragem, não tinha cabimento. “True Stories”, direção de David Byrne que encerrou o festival, foi visto como algo muito mais interessante. A verdade é que os críticos rodavam, rodavam, e não conseguiam explicar “O Cinema Falado”, cuja estreia comercial havia sido marcada para dezembro. A “Casseta Popular” prometera até um ato de protesto contra o filme.

No dia 4 de dezembro, aconteceu a estreia em apenas uma sala carioca: o decadente Cinema 1, na Rua Prado Júnior, inferninho de Copacabana. Comportando 500 pessoas, as sessões eram testemunhadas por menos de 100. Logo passariam a uma sala mais modesta, no Centro Cultural Cândido Mendes, Ipanema. Em São Paulo estreou uma semana depois, no dia 11, no Cine Belas Artes. Mas teve pré-estreia no Cine Metrópole, dia 5. E continuava a apanhar: a partir de uma (péssima) crítica de Caio Túlio Costa na Folha de São Paulo (07-12-86), começou a ser chamado de “Cinema Parado”. O apelido espalhou-se igual praga, por todo o país. Até o cantor Lobão, no auge do sucesso, deu sua estocada: “Vi o trailer e o Caetano fica explicando o filme. Arte não precisa de explicação”. E a cineasta Suzana Amaral: “'O Cinema Falado' já seria antigo há 20 anos. A Embrafilme está encampando o amadorismo”. 

Se o leitor estiver sentindo mal estar com tanta negatividade, vai sentir-se pior quando finalmente eu disser que estavam todos completamente equivocados. Nos últimos 30 anos, “O Cinema Falado” só fez crescer. Sim, é um “filme de ensaios”, como avisa na primeira cena. Mas com inesquecíveis passagens. Seja Hamilton Vaz Pereira lendo um trecho de “Grande Sertão Veredas”, ou Regina Casé deslumbrada com Fidel Castro. O nu frontal de Maurício Mattar, as danças do irmão e do amigo de infância de Caetano em Santo Amaro da Purificação – o tempo é criança brincando, e transformou “O Cinema Falado”, antes de tudo, em um almanaque de curiosidades sobre a década de 1980. 

O auge da beleza é o diálogo entre Dedé Gadelha e Felipe Murray em um apartamento de São Conrado. Da janela, vê-se o Elevado do Joá. Desde a aparição da dupla até o excerto seguinte, passam exatos 19 minutos e 15 segundos. Ora eles abrem uma porta corrediça, que dá na varanda – ruidosa pelos carros do Elevado – ora a fecham. E trocam impressões a respeito de cinema. Felipe comete uma pequena gafe, ao perguntar em tom incisivo: “Quando vamos assistir ao 'Bandido da Luz Vermelha' e 'O Anjo Nasceu', na TV?”. Caetano não sabia, mas “O Anjo Nasceu” já havia sido exibido pela TV Tupi, no dia 28 de abril de 1979, às 23 horas…

Por falar em TV Tupi, existe uma influência oculta em “O Cinema Falado” que ninguém se dá conta: certos programas de TV, dos anos 1970 e 80, pareciam bastante com a mise-en-scène das sequências. Vejam, por exemplo, as participações de Glauber Rocha no “Abertura”. O relançamento em DVD (2003) e o Youtube, que possibilita um comparativo, validam essa impressão. Além disso, a tecnologia consertou uma das principais queixas dos espectadores do passado: a de que, em um filme de falas, não conseguiam ouvir perfeitamente o que era dito na tela.

Ao ser consultado sobre os “Melhores de 86” pelo Jornal do Brasil, o diretor não se furtou a indicar, dentre outros, o próprio filme (!). Prossegue defendendo sua obra até hoje, nitidamente incomodado pela baixa receptividade. Sou fascinada por “O Cinema Falado” desde a primeira vez a que o assisti, uns quinze anos atrás. Diferente do que gritava Arthur Omar no Hotel Nacional, não era vanguarda de cartão-postal. Permanece instigante e único. E acho que se você não gosta de “O Cinema Falado” é porque o filme ainda não gostou de você. Deixe passar um tempo e torne a querê-lo. Um dia vocês se acertam. 

segunda-feira, outubro 17, 2016

Engraçadinha Depois Dos Trinta


Em junho de 1960, quando lançou a primeira parte de “Asfalto Selvagem” em livro, Nelson Rodrigues declarou: “Engraçadinha existe, sim. É carioca e tem atualmente 39 anos. É linda, uma das mulheres mais bonitas do Brasil. Lembra muito a Vivian Leigh, de O Vento Levou, quando a atriz estava no apogeu de sua beleza (…) Mora no Grajaú”. O boato, levantado pelo próprio Nelson, piorou na noite de autógrafos, que aconteceu no dia 7 de julho, na livraria São José, Centro do Rio. Engraçadinha estaria presente! Talvez por timidez suburbana, a diva não apareceu. E, se viva fosse, acreditando na informação de Nelson, teria hoje 95 anos de idade. 

Viajamos rapidamente para 1962, e flagramos o croata J.B. Tanko procurando uma protagonista para o filme, baseado no livro, através de uma seleção feita pelos jornais do Rio. “Você quer ser Engraçadinha?”, perguntavam. Creio que, na Velhacap daquele finalzinho de 62, muitas mulheres não só queriam ser Engraçadinha, como já eram. Muitas sonhavam sair da Zona Norte e se mudar para Copacabana. Muitas eram tão bonitas que os maridos as trancavam em casas tristes de vilas, esperando que envelhecessem. Outras, pecavam nas garçonnières, no frêmito de uma histeria charconiana. Engraçadinhas, a cidade amada tinha muitas. Nelson, como todo gênio, não mentira sobre a veracidade da protagonista: havia criado um ícone, síntese de muitas mulheres.

Curioso que a ex-repórter do Jornal do Brasil, Vera Vianna, tenha sido logo escolhida para ser a Engraçadinha jovem (o filme de Tanko, como o livro, seria dividido em dois). Vera voltaria na sequência “Engraçadinha Depois dos 30”, no papel de Silene, a filha pubescente da heroína. Em pleno 1964, Tanko rebolou com a Censura, viu o filme ser interditado no estado da Guanabara – Nelson defenderia sua obra chamando-a de “moralista”. Quando finalmente deu as caras, o espectador do Metro Tijuca, do Bruni Ipanema, saía do cinema pensando que era melhor ter ficado em casa, lendo o livro. Para piorar, era proibido para menores de 21 anos (!). Claro que, com a amizade do porteiro ou uns cruzeiros no bolso, qualquer um entrava. Mas, naqueles dias, a maioria das pessoas estava interessada mesmo era na turnê de Rita Pavone pelo país. A produção mutilada de Tanko ganharia o público aos poucos, graças à presença de Jece Valadão no elenco e, no final das contas, todos respiraram aliviados por reverterem um fracasso que parecia anunciado.

“Engraçadinha, Depois dos 30” (1966) é bem mais palpitante do que o antecessor, muito porque lambuza-se do Rio de Janeiro da segunda metade da década de 60. Nelson, responsável pelo argumento e pelos diálogos, parece estar corporificado na tela. Quando suas histórias saíam do Rio – a primeira parte de “Asfalto Selvagem” é passada no Espírito Santo – a potência do autor murchava. De volta ao lar, encalacrando a musa na casinha de Vaz Lobo, a trama reluz. J.B. Tanko é hábil em construí-la, apesar de novamente sofrer o assédio da Censura, que prejudicou bastante todas as adaptações rodrigueanas dos anos 60. Não só a Censura oficial, como também a autocensura dos diretores, que, nos anos 70, fizeram leituras menos formais de Nelson. A contracultura, os movimentos libertários, vejam só, ajudaram o reacionário Nelson a ver sua obra respirar melhor.

Se o leitor quiser escarafunchar as origens do termo “pornochanchada”, saiba que, àquela altura dos anos 60, filmes como “Engraçadinha Depois dos 30” já eram chamados de “chanchadas pornográficas”. E foi como uma “chanchada pornográfica” que chegou ao público. Nada tem de chanchada, muito menos de pornografia. Fossem sábios os intelectuais brasileiros da época, entenderiam ter às mãos uma preciosidade: o quartel carioca entre os anos 40 e 60 do século XX será muito mais lembrado pelos olhos de Nelson Rodrigues, do que por qualquer outra coisa. A força de seus textos é algo extraordinária, e lidar com essa matéria ainda fresca era como brincar com ouro. 

Tanko realiza um filme inesquecível, embora em tom menor dos que fizeram a glória do escritor nos anos 70. É ajudado pela boa interpretação de Fernando Torres, no papel do procurador Odorico Quintela, sujeito dos tempos do Espírito Santo que reencontra Engraçadinha (Irma Alvarez) no Rio e quer, sem muitos preâmbulos, comê-la. Para isso lhe oferece conforto material, espiritual, e uma televisão comprada a prestações. Tudo sob o olhar displicente do marido Zózimo (Nestor de Montemar), flamenguista empedernido – Nelson, tricolor, se vingava do clube rival – e os protestos dos filhos, Silene (Vera Vianna) e Durval (Mário Petraglia).

Tanto no livro quanto no filme, o idílio de Silene, em um quarto de bar nos sertões da Barra da Tijuca, são a melhor parte da história. Leleco (Cláudio Cavalcanti), o namorado, a leva para aquele lugar e vivem um romance sob a pressão de Silene ser currada pelo bando de Cadelão (Cícero Costa). Leleco vira homem, a protege, e termina envolvido em um crime. Outra cena linda é a capitulação de Engraçadinha ao pecado, junto com um funcionário do Itamaraty (Oswaldo Loureiro). Chove bastante e a mulher parece perceber que sua vida, o assédio do patético Odorico, o marido estulto, nada faz sentido. O único sentido da vida, para Engraçadinha, é o gozo. O imediato, o agora a ser vivido e esquecido.

Anotar todas as nuances da cidade, todas as pequenas minúcias reveladas pelo transitar das personagens, nos ocuparia bastante. Mas basta dizer que a Rua Gonçalves Dias surge em esplendor, os  carros de praça com os taxímetros “capelinha”, as ruas suburbanas – o subúrbio, como o sábado, era uma ilusão – um Aterro do Flamengo em obras, o túnel para Copacabana – a partir de Copacabana, iniciava-se o Rio moderno – a Casa Tavares – Rua da Quitanda, 30 – e uma profusão de caras, penteados, roupas e prosódias que emocionam. Sim, porque rever o século XX através do cinema brasileiro é, antes de tudo, um júbilo comovente.

No futuro distante, surgiriam outras “Engraçadinhas”. A de 1981, dirigida por Haroldo Marinho Barbosa e, principalmente, a da minissérie da Rede Globo, de 1995. Com roteiro de Leopoldo Serran, auxiliado por Carlos Gerbase, direção de Denise Saraceni e João Henrique Jardim, a Engraçadinha global foi a mais fiel (ops!) ao romance de Nelson. Traz Alessandra Negrini levantando defuntos como a protagonista jovem e a espetacular Maria Luísa Mendonça incorporando a prima Letícia – limada do filme de 66, provavelmente pela Censura anti-sáfíca. Se o leitor quiser desbravar os mistérios de Engraçadinha nas telas, comece pela minissérie, facilmente encontrável em DVD. Febril por um reencontro, veja o filme de Tanko. Parafraseando Letícia, grogue do tesão reprimido de décadas,  Engraçadinha não é tara. Engraçadinha é amor. 

domingo, outubro 16, 2016

Tô Ryca!



Quem dera fosse verdade. É o novo texto que escrevi na Cinética. Tem também "Aquarius" e "Mãe Só Há Uma". Em breve atualizo o blog!

segunda-feira, setembro 12, 2016

Como Ganhar na Loteria Sem Perder a Esportiva



Félix, Carlos Alberto, Brito, Piazza, Everado, Clodoaldo, Gérson, Jairzinho, Tostão, Pelé, Rivelino. No alvorecer dos anos 70, quase todo brasileiro sabia repetir esse mantra de cor. Era a escalação do escrete canarinho, que havia acabado de ganhar a Copa do México. Dizia-se que nunca mais outro técnico conseguiria repetir a façanha de montar um time tão vertiginoso. Zagallo, que herdara a seleção de João Saldanha, estava realmente no lugar certo na hora certa. Mas, passados alguns meses, em 9 de fevereiro de 1971, outra seleção imbatível apareceria, só que nos cinemas: "Como Ganhar na Loteria Sem Perder a Esportiva" é, de longe, o maior elenco já reunido em um filme brasileiro. 

O croata J.B. Tanko, com uma mãozinha de Herbert Richers e o auxílio luxuoso, no roteiro, de Flávio Migliaccio e Gilvan Pereira (diálogos de Nelson Rodrigues!) colocaria nas quatro linhas da tela: Costinha, Agildo Ribeiro, Paulo Porto, Procópio Ferreira, Otelo Zeloni, Fregolente, o próprio Migliaccio, Rodolfo Arena, Wilson Grey, Maria Della Costa, Renata Fronzi e tanta gente que formaria uns dois ou três times brilhantes, sem suar a camisa. Foram mais de cinquenta atores, para falar de um assunto que era moda na época: a febre da Loteria Esportiva.

Tentativa ordenada do Governo Militar para enfrentar o ilegal jogo do bicho, a loteria em que o apostador investia 2 cruzeiros, e precisava acertar o resultado de 13 partidas de futebol, atingiu proporções inimagináveis no decorrer da década. Histórias de suicídios, riquezas e ruínas instantâneas eram comuns. E o cinema não poderia deixar de explorar o filão. No mesmo período, estrearam "O Barão Otelo No Barato dos Bilhões", de Miguel Borges, e o curioso "O Bolão", que tinha no elenco o cantor Taiguara. Nenhum desses, no entanto, sequer arranha o espetáculo que é o filme de Tanko.

A sorte de "Como Ganhar na Loteria..." vai além de ter conseguido reunir alguns dos maiores comediantes brasileiros, em sua melhor forma. Passa também por olhar o país em um momento otimista, quase eufórico. As cenas de abertura com "Cidade Maravilhosa", o hino do Rio de Janeiro, são quase uma epígrafe. Há um indisfarçável amor pelo Brasil e pela vida nacional, bem ao gosto da pauta do governo Médici. Àquela altura inebriados pelo tricampeonato e pelo chamado "milagre econômico", os 90 milhões de brasileiros “em ação” não sabiam o que os esperava no futuro. Também não sabiam – ou fingiam não saber – que os discordantes ao governo eram censurados ou iam em cana. Para o cidadão médio, o país parecia andar nos trilhos. Se um dia cravasse 13 pontos, o lucro seria ainda maior.

Aviões da Cruzeiro no Santos Dumont, radinhos de pilha com capa marrom de couro (sem capinha, os rádios ostentavam uma nudez triste), cigarro com filtro ainda era novidade. Direto das cracundas do Programa Flávio Cavalcanti, o delegado Nelson Duarte. Em cinco minutos de "Como Ganhar na Loteria..." volta todo um ethos, fantasmas do mundo que morreu. Apesar de estarmos no Rio, aqueles escritórios em madeira laminada, típicos da decoração modernista, eram a cara de Brasília nos anos 60. Saindo do escritório – em que estavam reunidos Paulo Porto e Otelo Zeloni – a cidade fervia: Flávio Migliaccio é um mendigo que sonha tirar os 13 pontos para comprar os Arcos da Lapa, onde já vive em um cantinho. “Por que os Arcos?”, um colega de infortúnio pergunta: “O sonho da casa própria!”, responde.

Perto dali, o rendez-vous, em que pontifica Costinha, bicha louquérrima. Que o século XX tivesse que acabar, nos conformamos. Mas Costinha nunca poderia ter morrido. Um homem que só fazia o bem. Até “Eu Também Quero Mocotó”, do V Festival Internacional da Canção, ele canta. Vemos ainda uma família em pedaços, comandada por Fregolente açoitando a empregada, com arroubos verbais que em 2016 lhe colocariam na cadeia. Mas Deus escreve certo por linhas tortas: o desgraçado torce pelo Fluminense; o filho, pelo Flamengo. Lembramos que "Como Ganhar na Loteria..." é de um tempo em que a torcida do Fluminense lotava um Maracanã de 200 mil. Hoje, se tiver jogo nas Laranjeiras, sobra vaga. Operando os diálogos, a mão invisível de Nelson Rodrigues (que era tricolor) não deixa dúvidas: “Ser Fluminense é uma tragédia”, diz o filho para o pai inconsolável.

No rastro de "Aeroporto" (1970) a década produziria alguns dos melhores filmes catástrofes já feitos.  "Como Ganhar na Loteria..." tem estrutura similar a um filme-catástrofe: apresenta os personagens, seus dramas e, em vez de afundá-los no Poseidon, ou chamuscá-los na “The Glass Tower”, faz com que todos ganhem na Loteria Esportiva. Exatamente isso que eu disse: todos vencem, no mesmo sorteio. Cada um pensa que ganhou sozinho a bolada de 4 bilhões de cruzeiros. E, claro, começam a gastar e agir por conta, sem imaginar que o prêmio será dividido por milhares de apostadores.

Não era incomum, nos resultados da Loteria Esportiva, que muitos apostadores ganhassem o prêmio. Também não era incomum que poucos ganhassem, tornando-se milionários. Diferente da Sena e da Quina, a Esportiva oferecia um atalho ao nirvana para os viciados em futebol. Quem conhecesse a situação dos times, os resultados anteriores, fazia um bom prognóstico. Ao mesmo tempo, alguns jogos tinham palpites tão crassos que só uma surpresa – a chamada zebra – evitava que uma multidão acertasse os 13 pontos.

Em 1967, o Cruzeiro, moeda que circulou durante 25 anos, havia perdido três zeros e passado a se chamar Cruzeiro Novo. Para piorar a confusão, em 15 de Maio de 70, voltaria a se chamar Cruzeiro, com a entrada em circulação de novas cédulas. O problema é que o comércio e o povo, em geral, demoraram a seguir o padrão de 67, continuando a usar três zeros nos valores correntes. Por esse fenômeno bizarro, não sabemos se os 4 bilhões de cruzeiros, de que trata o prêmio do filme, eram cruzeiros novos ou antigos. Provavelmente, antigos. E, convertidos para 4 milhões de cruzeiros novos, o feliz ganhador da Loteria Esportiva receberia, em valores de 2016, cerca de 40 milhões de reais. Não admira que os personagens tenham saído de si, sem atinarem o número de laureados com quem dividiriam a felicidade.

"Como Ganhar na Loteria Sem Perder a Esportiva" rendeu uma bolada, passou semanas em cartaz e foi um dos lançamentos mais vistos de 1971. Chegou a dividir, em fevereiro, mais da metade do circuito Rio-São Paulo com apenas dois filmes: "Pra Quem Fica Tchau!" e "O Donzelo". Bons tempos para o cinema brasileiro, que estava dando os primeiros passos no blockbuster da década: a comédia erótica, conhecida a partir de 1974 como pornochanchada. Mas "Como Ganhar na Loteria..." trocava a crescente obsessão pelo sexo por um culto voluptuoso ao dinheiro. Nesse aspecto, os “filmes de loteria esportiva” soam quase proféticos do futuro. Hoje, passados 45 anos, podemos dizer que foram uma espécie de avôs das moneychanchadas