terça-feira, março 17, 2015

O Homem da Capa Preta


Tenório Cavalcanti, político de Duque de Caxias, Baixada Fluminense. Inspirado em três livros -- “Capa Preta e Lurdinha”, “Tenório, o Homem e o Mito” e “Tenório, Meu Pai” -- Sérgio Rezende dirigiu e escreveu – auxiliado por José Louzeiro e Tairone Feitosa -- “O Homem da Capa Preta” (1986), cinebiografia do caudilho, migrado do sertão de Alagoas para os arrabaldes cariocas, que encontra no sertão urbano uma oportunidade de glória e redenção.

Em meados daquela década, o cinema brasileiro procurava novas alternativas ao modelo da Embrafilme, apontado por muitos como decadente. O Plano Cruzado estava a um segundo de dar com os burros n'água, a violência crescia avassaladoramente nas metrópoles. Eis o cenário perfeito para Tenório (José Wilker) sacar sua metralhadora, a indefectível Lurdinha, e entrar no pacotão das 40 produções que receberam o “maciço investimento de 250 bilhões de cruzeiros” da Embra 86. As filmagens haviam terminado em Dezembro de 85 e grande expectativa cercava o lançamento, que fazia parte de um planejamento estratégico contra o então hipnotizante “cinema pornográfico”, ladrão de salas em todo o país. 

Em março, “O Homem da Capa Preta” já circulava em sessões privadas no Rio e a expectativa só crescia. Mariza Leão, mulher de Rezende e produtora do filme, anunciava inclusive que estava em “dupla gestação”, aguardando a estreia e o nascimento do terceiro filho do casal.

Antes da estreia, porém, em abril a participação no festival de Gramado causou enorme e boba polêmica. Carlos Alberto Prates Correa – genial diretor de “Perdida” (1975) – disse a Rezende que achou seu filme “fascista, de direita”. Um pouco mais bem-humorado, o jornalista Joaquim Ferreira dos Santos comparou o personagem de Wilker a um Exu. Mas quem colocou lenha foi o neto de Tenório, declarando que “O filme foi o salário moral que meu avô conseguiu receber por tantos anos de trabalho”. Acabaram ganhando o prêmio de melhor filme, entre outros. Cá entre nós, típica injustiça nacional, pois concorreu com “Filme Demência”, de Carlos Reichenbach.

No dia 18 de Agosto, quando finalmente estreou, todos queriam Tenório. Claro que a estreia não foi somente uma estreia: representou uma homenagem pública, com a presença de políticos e uma ovação ensurdecedora. Até eu, com quase nove anos de idade, enchi o saco do meu pai para me levar ao Roxy, em Copacabana, dias depois. Lembro que ao nosso lado, nas poltronas do gigantesco Roxy, sentou-se uma garota gordinha e com visual punk, que cheirava muito mal.

Embora eu tenha conseguido burlar facilmente a censura 14 anos, nem era preciso. Em lance arrojado, a Manchete Vídeo distribuiu a produção simultaneamente em VHS. Após tanta repercussão, parecia que o happening se esgotaria. Mas vocês não viram nada! “O Homem da Capa Preta” logo teve fôlego de ser envolvido em enorme discussão sobre a violência nas telas. Comparado a “Cobra” de Sylvester Stalone pelo diretor da Motion Picture Association -- o Fumanchu das esquerdas, Harry Stone --, o “capa preta” respondeu com enorme anúncio publicitário intitulado “Capa Preta e a Violência”, refutando Stone e se dizendo “um filme que respeita o público, emociona, diverte e faz o brasileiro gostar mais do seu país”. Ah, que lindo! Até chorei aqui, sentada em 2015.

Sibilam as más-línguas que, em pleno governo Brizola e na boca do povo, o termo “capa preta” rapidamente passou a se referir a uma poderosa trouxinha de brizola ofertada pelos traficantes da Zona Sul. Talvez seja só uma lenda urbana (duvido, em se tratando da galhofa carioca) que, no entanto, mede o grau de sucesso e prestígio que o filme representava naqueles idos de agosto e setembro de 1986. Neusinha, cria tresloucada do mandatário estadual, com certeza devia aprovar as novidades cinematográficas. Aprovava tanto que engatou um namoro com Fábio Tenório, o neto do homem e candidato a deputado estadual pelo PDT. Não foi eleito, recebendo apenas 5.128 votos. 

Em outubro, para completar o show, uma bomba de fabricação caseira explode em um cinema de Nova Iguaçu, ferindo levemente três moças. O que estava passando no momento da explosão, na sala lotada por 300 pessoas? “O Homem da Capa Preta”, lógico! Nenhuma surpresa que a história do “dono de Caxias” tenha feito quase um milhão de espectadores. Uma beleza que transformaria o jovem Rezende – de 35 anos, vindo de “O Sonho Não Acabou” (1982) – em uma espécie de “cineasta das multidões”, alguém capaz de dar ao ofício a comunicação com o grande público. Ele, por sua vez, gostava de declarar não ter nenhum pudor em “fazer sucesso”. Coisa que no Brasil, já avisava Tom Jobim de Nova York, é ofensa pessoal. 

Sob o aspecto estritamente artístico – o que menos interessava, como sói perceber – a produção havia, de fato, realizado um trabalho notável. Não pelo estilo de filmar, redondo e previsível, mas pelo cuidado visual e pela escolha do protagonista José Wilker. Ora, trata-se de um “filme de protagonista” e uma escolha mal sucedida naufragaria o resto. Wilker, no entanto, compreende bastante o animus do político-pistoleiro e, mesmo quando contracena com algumas opções caricaturais – Guilherme Karan de Flávio Cavalcanti é terrível –, impõe-se, ao ponto de ter virado a representação icônica de Tenório Cavalcanti no inconsciente popular desde então.

Por outro lado, o protagonista passa grande parte do filme sofrendo atentados – dizem que levou 47 tiros, ao todo. Em provocação, discursa: “Eu não fui eleito para ser feliz”, “Melhor a liberdade de passar fome que comer de graça na cuia do domador”. O domador de Lurdinha, também dizem, era excepcional frasista. E o roteiro aproveita tais qualidades de forma generosa. Se faltam momentos brilhantes, ao menos o ritmo bem-disposto não compromete quem esteja encantado pela reconstituição dos anos 50 e 60, joia rara de se ver nos apertos oitentistas.

Da metade para o final, pilotando um Chevrolet 58 – que pertencia ao colecionador Nelson Afonso Crisanto da Costa –, Wilker sente-se ainda mais à vontade. Tenório cria o “Luta Democrática” – “Um jornal feito por homens que lutam pelos que não podem lutar” –, de onde pululam manchetes no estilo pinga-sangue: "Presunto Podre, Farinha de Vermes! Os Venenos Que o Carioca Está Engolindo", "Pegou o Marido Com Outro e Se Suicidou". Entende que a palavra fere mais do que a metralhadora e resolve sair da UDN, se candidatando a governador do estado da Guanabara.

Uma informação mitigada que pode confundir o neófito: Duque de Caxias, reduto de Tenório, era município do antigo estado do Rio, do qual a Guanabara, atual cidade do Rio de Janeiro, não fazia parte – a fusão só aconteceu em 1975. Assim, quando resolve partir para o estado vizinho, de certa forma vivia uma aventura destinada ao fracasso. Enrola-se definitivamente ao apoiar o governo de João Goulart, o que encerra sua carreira política no golpe de 31 de março de 1964.

Esqueçam a ideia, tão propagada na época, que “O Homem da Capa Preta” era uma obra autoritária. Trinta anos depois, isso parece tão repugnante quanto as acusações de que “Tropa de Elite” é fascista e José Padilha um agente da nova direita. Em se tratando de cinema brasileiro, o lado sobrenatural tende sempre a vencer o materialista, então o único comentário digno de nota foi aquele, na noite dos tempos, escrito por Joaquim Ferreira dos Santos, observando que José Wilker parecia um Exu. Na verdade, a capa vermelha e preta de Tenório nunca estava ali à toa. Era realmente Exu e é sobre uma entidade que Rezende quer nos falar. Um trickster, na linguagem dos arquétipos junguianos. 

Tenório Cavalcanti morreu em maio de 87, poucos meses depois de toda a badalação que rondou o nome e o mito de “O Homem da Capa Preta”. Foi sepultado em Caxias, com sua beca de bacharel em Direito e acompanhado por uma multidão em cortejo. Delicioso imaginarmos muitos estando ali pela força do cinema – que, antes de ser a realização de uma obra isolada, é poderoso aglutinador de forças externas a si mesmo. Portanto, se o leitor quiser entender um filme, aconselho estudar história e as histórias que o cercam. Pelo menos esta é minha opinião. E, parafraseando nosso (anti) herói, não escrevo para ser feliz. 

segunda-feira, fevereiro 02, 2015

Afrânio Vital em Compasso de Espera


Afrânio Vital da Silva é dos homens mais inteligentes que eu conheço. Não bastasse sua cultura e conhecimento técnico de cinema, é também um grande crítico de arte, capaz de revirar uma obra do avesso sob diversas leituras.  

No Brasil é pecado “falarmos bem” do outro. A não ser, claro, em situações de politicagem servil e interesse mútuo. Logo, alguns leitores devem estar se perguntando por que a afirmação contundente de que Afrânio é tão relevante. Explico: o Estranho Encontro sempre existiu para desvendar aspectos ocultos e mal explicados do cinema brasileiro. E, aos 66 anos, o diretor e intelectual negro continua vivendo à sombra do mundo que o desconhece. 

Afrânio não dá aulas, não filma há 30 anos, não escreve livros, não passa seu conhecimento a ninguém. A não ser que o procurem em seu apartamento em plena Rua do Riachuelo, no coração da Lapa carioca. Então rejuvenesce, os olhos brilham. Acende um cigarro atrás do outro e fala. Nos últimos dez anos conversamos sobre quase tudo. A entrevista, que fizemos em 2006, era uma parte dos assuntos. Outra entrevista, que concedeu a Adilson Marcelino em 2011, cobre espectro importante de sua vida: a convivência com Walter Hugo Khouri. Nesse meio tempo, eu achava que Afrânio ainda merecia mais. Ainda merece muito mais.

Em 2015 o Estranho Encontro completa dez anos.  Minha vida mudou muito nesses últimos dez anos. O blog, aos trancos e barrancos, me acompanhou. É parte da minha história de vida, na qual equilibro o Direito, a Literatura, a Pesquisa e a Crítica de Arte. Meu pai, que era médico, professor e escritor, dizia sempre que feliz é quem exerceu várias profissões na vida, assim não cansou de nenhuma. No meu caso, tento seguir o exemplo.

Para comemorar esses dez anos, pretendo voltar a alguns personagens importantes na história do blog. Conversar novamente com eles, entender o que fizeram na década, buscar, nessa desculpa retrospectiva, novas histórias. A escolha de Afrânio para inaugurar a série responde a isso. E também porque, como disse,  Afrânio Vital da Silva é um dos brasileiros mais inteligentes que conheço. Posso discordar de muita coisa que ele diz (como discordo de grande parte dos meus entrevistados), mas registrá-los cuspindo fogo é dever cívico. No futuro vocês me agradecerão, podem ter certeza. 


ESTRANHO ENCONTRO – Afrânio, pergunta inevitável: a que você atribui o fato de ter uma carreira riquíssima no cinema, ser um intelectual que muito pode contribuir para discutirmos a condição do negro no Brasil e nunca ser lembrado quando se trata do tema? Salvo eu, o João Carlos Rodrigues e o Adilson Marcelino, a impressão que passa é que te excluíram totalmente da história do cinema brasileiro.

AFRÂNIO VITAL – Eu fui totalmente excluído. Eu não existo. 

EE – Está em “compasso de espera”, como o personagem do Bulbul no filme do Antunes Filho?

AV – Sim, aos 66 anos e em “compasso de espera”. Outros negros que dirigiram apenas um filme ou documentários são constantemente citados e possuem mais visibilidade. Isso porque, além de seus talentos, se agarraram aos pêndulos balançantes de alguma causa específica, seja no cinema popular ou no Cinema Novo. Eu não consegui fazer isso, me soava servil. Acredito que muitos foram usados como do "movimento negro" pois não fizeram mais filmes. Foram usados e descartados como exemplos de oportunidades dadas aos negros e mal utilizadas. 

EE – Qual a sua opinião sobre o movimento negro?

AV – Esse negócio de movimento negro, movimento gay, etc., me soa estranho. Existem gays e negros burros, malandros e oportunistas. Como existem negros honestos, criativos, e gays inteligentes e talentosos. Esse negócio de movimento me cheira sempre a uma armação para arranjar uma grana ou defender interesses escusos. Você, o João Carlos, o Reichenbach, o Adilson, o Nirton Venancio, reconheceram minha existência porque não são financiados e bancados por nenhum grupo específico. Vocês têm os "olhos livres", como diria o Carlão. Não são dogmáticos e nem têm contas a prestar a nenhum movimento. Não servem a nenhum Deus. 

EE – Fale mais sobre esse estado de coisas.

AV – O Brasil está assim. Pouco importa os livros que se escreva, o filme que se faça, o quadro que se pinte etc. Nem é necessário ler nem ver. O que interessa é a que Deus ou movimento o sujeito serve. O meu não-existir se dá também por não ser um negro servil, de cabeça baixa e obediente. Minha cultura e meu modo de falar, de agir, incomodam. E infelizmente soa para alguns como pedante e se aproveitam disso. Não tenho culpa de ser culto, de ter estudado e vivido tanto. Sou sincero e autêntico, não devo nada a movimento algum e isso assusta muita gente.

EE – E você produziu todos os seus filmes.  

AV – Em primeiro lugar, produzi, escrevi e dirigi sozinho todos os meus filmes. Em segundo, não fui de fazer filmes com uma mensagem panfletária evidente, que leve pessoas a baterem palmas na sessão, me considerarem o salvador do mundo e me elegerem como defensor dessa ou daquela causa específica. Aprendi com o Carlos Hugo Christensen, que também não era do oba-oba e da autopromoção, que os filmes são feitos para o público e que não são dissertações de mestrado. 

EE – Em que o fato de ser negro piora isso?

AV – Essa questão da negritude também é muito importante quando te julgam. Quem me atentou para isso foi minha esposa, Terezinha. Ingenuamente, eu nunca havia percebido. Em dado momento, ela foi comigo na Mesbla, compramos uma máquina fotográfica Asaih Pentax e me disse: “Afrânio, olha aqui e presta atenção, é papo reto: você é negro. Quando estiver ao lado do Khouri, do Pelé, do Christensen, quando circular nos filmes ao lado de pessoas importantes, fotografe tudo. Depois poderão dizer que você está mentindo e que nada disso se sucedeu”. Fiz isso e ainda tenho essa mania chata de me fotografar com amigos em diversas ocasiões. Terezinha tinha razão e isso já me salvou de diversas situações em que fui ridicularizado de forma premeditada e má, acusado de mentiroso, ameaçado de processos, de falsa cultura, de forjar experiências vividas e irreais, de dizer inverdades. Por aí você tem uma ideia da minha luta e do que é ser negro num momento de crítica e julgamento. 

EE – Afrânio, eu quero abordar agora vários pontos que, por falta de tempo, a gente não tratou em 2006. Você é um grande colecionador e entusiasta de jazz. Fale um pouco sobre como o jazz entrou na sua vida.

AV – O jazz apareceu pra mim em Madureira, nos anos 60. Eu e um grupo de amigos adolescentes ficávamos acordados até tarde na rua. O calor insuportável e a falta de espaço nos quartos do "Buraco Quente", na Rua Capitão Macieira, obrigava a isso. Escutávamos música em cima de uma caixa d'água, em um rádio de pilha. Os programas do lendário Paulo Santos, “Tempo de Jazz” e “Encontro com Jazz”, na Rádio MEC. Era um lenitivo para o sofrimento cotidiano. Não usávamos drogas como os outros jovens, só tomávamos umas cachaças e cervejas. Mas nos viciamos no jazz como alternativa para a falta de perspectivas naquele solitário e quente subúrbio carioca.

EE – E como você começou a adquirir sua coleção?

AV – Comprei junto com o Edinho Carvalho, grande amigo que perdi esse ano, uma vitrola velha e os primeiros discos: Wes Montgomery, Sinatra e Basie, Coltrane e outros. Alguns ainda conservo até hoje. O jazz em vídeo veio mais tarde, os primeiros adquiridos em Nova York, em frente ao Village Vanguard, de um colecionador. Mas o primeiro foi um VHS que veio através de minha filha Ana Julieta, quando estudava balé na “Steps” da Broadway. Foi o “Ladies sings the Blues” em VHS,  com Lena Horne, Billie, Sara, Ethel Waters e Bessie Smith. Muitas das indicações de discos vieram também através do Khouri, outro colecionador e aficionado. Os demais vídeos foram no clube de jazz, que criei junto com meu amigo Eduardo Franklin Villela Souto, também colecionador. Fazíamos mostras em vários locais. Acabei por ter centenas de video-lasers e VHS que cobrem praticamente tudo de jazz em imagens existentes. 

EE – E quais são seus músicos preferidos?

AV – Mudo sempre e isso se deve ao estado de humor em que me encontro. Atualmente escuto muito Coltrane, Monk, Bill Evans e cantores como Johnny Hartman e Nina Simone. Mas isso não quer dizer que não volte amanhã para o Swing e curta Basie, Ellington e Cab Calloway, além de cantores como Billy Ekstine e Sarah Vaughan. Jazz para mim continua sendo um bálsamo, um lenitivo para o sofrimento diário e uma forma também de comemorar a alegria cotidiana. Meu estado de humor é que rege minhas escolhas, entre centenas de discos e DVDs de jazz.   

EE –  Trace uma analogia entre o jazz e a condição do negro no mundo.

AV – Fats Waller, para mim, é o exemplo máximo dessa analogia. Nos Estados Unidos foi considerado um entertainer, um artista menor, um cômico desprovido de sentido. Morreu jovem, solitário, gordo, cansado e abandonado no vagão de um trem. Foi na verdade assassinado pelo mundo do entretenimento, sem que fosse reconhecida a sua genialidade, o que só ocorreu posteriormente. Isso também sucedeu com a Billie, com Charlie Parker, Mingus, Monk e outros. A música, principalmente a música negra e o jazz, talvez seja o maior legado que a América deixará ao mundo. Mas eles mesmos teimam em não ver sua importância, pois ela nasce desse sofrimento e também o denuncia. Scott Fitzgerald, outro aficionado pelo jazz, dizia que não há segundo ato na vida dos americanos. Ele próprio foi uma prova disso. Derrubado pelo alcoolismo e outras tragédias, nunca mais se levantou. Quando morreu, em 1940, muitos se espantaram de que ainda estivesse vivo. A América é cruel com seus gênios, ainda mais com gênios negros. Vide o que sofreu Nat King Cole: o ameaçavam de morte, a Ku Klux Kan queimava cruzes em frente de sua casa e nunca conseguiu pelo menos um anunciante para o seu maravilhoso "Nat King Cole Show", que tenho completo e revejo sempre. A Madison Avenue e seus publicitários não gostam de negros. Nat King Cole foi na verdade assassinado aos quarenta e poucos anos. Sua própria presença linda e criativa na TV assustava e soava como uma denúncia das causas desse sofrimento, que o jazz teima em colocar em primeiro plano.

EE – Mudando radicalmente de assunto, o escritor Octavio de Faria escreveu o prefácio do seu livro sobre o Khouri. Conte como você conheceu Octavio de Faria e suas impressões sobre ele.

AV – Octavio de Faria era um cinéfilo. Além de escritor, participou do Chaplin Club, fundado para estudar os problemas do cinema. Fez um elogio aos trabalhos do Khouri num artigo de jornal e gostava demais de “O Anjo da Noite”. Khouri teve a ideia de mandar que eu o procurasse e pedisse o prefácio do livro. Estávamos nos anos setenta, em plena ditadura e eu, pobre estudante de filosofia, de formação marxista e freudiana, quase pirei. Já havia lido alguns trechos da “Tragédia Burguesa” e achava aquilo profético, apesar do pensamento conservador e direitista. Alguns amigos me aconselharam a não procurá-lo, mas mesmo tremendo de medo fui ao seu encontro. No caminho dizia para mim mesmo: “A luta de classes existe, cara!”, “A luta de classes existe!”, repetidas vezes. 

EE – Ele morava em Botafogo, não?

AV – Ele morava na Avenida Rui Barbosa, naqueles apartamentos imensos e cinematográficos. Tomei umas cervejas e um conhaque para tomar coragem e fui. Pensei em encontrar uma figura amarga e sorumbática, com cara de torturador, mas foi o contrário. Me recebeu muito bem e com um humor e alegria que me contagiou. Era um intelectual de direita, obviamente, mas muito inteligente e extremamente culto. Conversamos um bom tempo sobre cinema, como tínhamos feito anteriormente por telefone, pegou o original do livro e em uma semana escreveu o prefácio. Foi um dos muitos encontros significativos em minha vida. A partir daquele momento, passei a não discriminar as pessoas pela sua opinião política e partidária. Ele me ganhou, acabei por ler outros volumes da “Tragédia Burguesa” e hoje a considero uma obra de extrema importância para a compreensão das estruturas de dominação familiar nesse pobre Brasil. É tão profético quanto Gilberto Freyre. 

EE – E o Nelson Rodrigues, como você o conheceu?

AV – Relendo o "Teatro Quase Completo" me veio a ideia de fazer uma adaptação de “A Mulher Sem Pecado” para o cinema. Conversando com um amigo a respeito, ele leu o roteiro, gostou muito e me aconselhou a procurar o Nelson. Disse que caso o Nelson aprovasse, ele produziria o filme. Procurei o Nelson através de sua irmã, Helena Rodrigues. Nelson leu o roteiro, conversou comigo sobre cinema e teatro, um papo longo que ia de Ibsen, passava por Strindberg e os grandes do teatro americano, como Tennnessee Williams e Arthur Miller, e aprovou o roteiro sem restrições, na íntegra. Eu havia pensado na Vera Fischer para o papel principal e ele indicou o Paulo Goulart para o principal papel masculino. No seu modo irônico de falar, dizia: “Paulo Goulart ganha o papel pelo nariz”. Nelson era muito divertido. A produção foi iniciada, mas duas semanas depois fui chamado pelo meu amigo produtor, que me disse que infelizmente eu não dirigiria o filme. Achei estranho e perguntei por quê. Ele disse que o pessoal que ia botar a grana achava que eu não tinha experiência, retruquei que tinha sim, pois já havia dirigido vários filmes, enfim, me roubaram o filme na mão grande. Procurei Nelson e disse do ocorrido. O Nelson não aprovou nenhum roteiro dos vários escritos pelo meu “amigo”, e o filme não foi feito. Ainda na sequência, o Nelson que havia simpatizado comigo, ciente da minha situação, me autorizou por escrito a captar recursos para fazer o “Anti-Nelson Rodrigues”. Tenho a carta e a autorização até hoje. 

EE – Fale um pouco mais sobre o Nelson.

AV – Falar sobre o Nelson é impossível, não existem palavras para descrever sua importância no teatro e na literatura brasileira. Vou te contar um episódio que resume isso que falo. Ele me convidou certa vez para a estreia de um dos filmes baseados em sua peça, se não me engano foi “Os Sete Gatinhos”.  Fui com a Terezinha, mas cheguei um pouco atrasado, a sessão não havia começado e eu e Terezinha tivemos de sentar nos dois lugares restantes, ao lado de Nelson e de Gilberto Freyre, que ele me apresentou. Ficamos escutando a conversa de alto nível que mantinham ao nosso lado. Apagada a luz e começada a sessão, segurei nas mãos de Terezinha e ela tremia feito vara verde. Perguntei: “Amor, você está se sentindo bem?”. Ela respondeu: “Afrânio, estou sentada ao lado de Nelson Rodrigues e Gilberto Freyre, talvez os dois mais importantes homens para se entender o Brasil. Tô emocionada e não é para menos.” Eu acho que ela tinha razão.

EE – Fale um pouco sobre psicanálise, sua experiência dentro da psicanálise e como você acha que a psicanálise pode contribuir para explicar o mundo atual.

AV – A grande concorrente da psicanálise atualmente é a religião. As religiões vendem a salvação e a vida eterna e é impossível concorrer com isso, não acha? É quase sempre para a agonia que a psicanálise nos leva, para que nela se lave a culpa edipiana. Ela é para poucos, pois a psicanálise deve ser cara, no sentido de querida. É preciso ter muita humildade para a sua prática. Atualmente quase não existem mais seres humanos, a maioria foi transformada em consumidores e, como tais, exigem soluções mágicas e imediatas para seus dramas e suas vidas. As drogas, a televisão, a Internet, as alterações químicas nos alimentos fast food, acostumaram os consumidores a exigir a felicidade em um copo. Um suco de laranja natural não é tão gostoso como uma Fanta ou uma Sukita. Os aditivos químicos neles colocados vendem a felicidade imediata. É quase impossível concorrer com isso. A psicanálise é para poucos. Mas, por ironia, ela é para mim a única saída: o "conhece-te a ti mesmo" inscrito no oráculo de Delfos é verdade incontestável. Eu acreditei nisso e me deixei levar por essa verdade, creio que não errei. Transforme-se e o mundo se transformará, como se diz hoje em dia. Mas para que isto se realize é preciso muita humildade e é preciso que se veja o outro como um sujeito semelhante. Será que alguém quer isso?     

EE – Você esteve muito ligado a psicanálise lacaniana nos anos 70 e 80. Como foi a experiência?

AV – Fui aluno assistente do MD Magno na Faculdade Estácio de Sá, na cadeira de “Fundamentos Científicos da Comunicação”. Ele, analisando de Lacan, havia retornado de Paris e lecionava exatamente Lacan e psicanálise. Mais tarde, quando fundou o Colégio Freudiano do Rio de Janeiro, fiz lá diversos cursos entre os quais os de “Introdução à Formação em Psicanálise”. Minha indicação para a análise veio de meu amigo Georges Lamazière, a quem sou eternamente grato. Não fui analisado por lacanianos. Concordo com tudo em Lacan, mas discordo do tempo lógico. Sou adepto dos 45 minutos clássicos da sessão e fiz minha análise com Mario Romaguera e depois prossegui com Benilton Bezerra Jr. Ambos, na época, do Circulo Psicanalítico do Rio de Janeiro, analistas adeptos dos 45 minutos clássicos. 

EE – Estamos falando de psicanálise. Tem alguma vinheta psicanalítica da sua vida que você ache que vale a pena contar?

AV – Sim, uma da tenra infância. A psicanálise gira toda em torno de um desconhecimento, um conhecimento e novamente um desconhecimento. É um constante e eterno enfrentamento dialético com a resistência que oculta a verdade inconsciente. E essa verdade está nos traumas infantis, infelizmente sexuais, e por mais que tentemos domar Freud e afastá-lo do sexual, tentemos ocultar o enigma da sexualidade, é para ela que o inconsciente nos chama e converge. O que são esses tão falados traumas infantis? São os mesmos em todas e quaisquer pessoas. As primeiras experiências e tentativas sexuais de infância. Então, eu me lembro muito dos meus cinco ou seis anos de idade e de um momento de interdição quando ouvi "Não! Você não!" em face de uma tentativa infantil de prazer. Esse momento de castração do sujeito é eterno, pois nunca nenhum de nós se contenta e aceita o corte do "barato". É aquele momento em que "cortam a nossa onda" e que não aceitaremos jamais, momento esse que, em alguns episódios de fraqueza na vida, confessamos aos amigos como fez Fitzgerald em "The Crack-Up" e fez Khouri em todos os seus filmes.  Aí é que começa o que se chama modernamente de vida. Ou seja, você procura um objeto que sabe que não existe, pois é interdito, e jamais o alcançará. Mas está condenando a procurá-lo até o último momento de sua vida. Esse momento do trauma primevo também é o momento do conhecimento total da verdade pronunciada por Macbeth, ao ver a floresta de Dusiname caminhando em sua direção: "A vida nada mais é do que um sonho narrado por um louco cheio de som e fúria e que significa exatamente nada". Ou aceitamos essa dívida que não contraímos ou a mascaramos pela religião, exacerbação sexual e outras mumunhas mais. Eu, Khouri, e muitos tivemos coragem de aceitar e não mascarar a angústia do cotidiano com sonhos cor-de-rosa ou vermelhos.   

EE – Afrânio, na entrevista de 2006 eu lembro que você falou sobre sua mãe, da relação edipiana com a Mãe. Dentro da conversa psicanalítica, deste insight sobre a Interdição, eu quero que você fale um pouco da figura do Pai. 

AV – O Pai. O Pai sempre surge pós-trauma. Ninguém é Pai a não ser por metáfora. Antes do trauma pensamos que somos Deuses e é nesse sentido que a homossexualidade é sempre uma defesa. Se corre para o lado do Pai tentando suborná-lo e convencê-lo do nosso desejo, mas, no fundo, um ódio ao Pai se esconde nesse desejo e ele, o Pai, acaba por nos demonstrar isso de forma muitas vezes sutil. Eu tive um relacionamento com meu pai, e acredito que muitos, nesse sentido, de uma cumplicidade amorosa na divisão do amor da mãe. Convivi com ele até os 10 anos de idade, quando ele faleceu. Na verdade para a criança essa fase é um "love affair" e o sentimento de culpa com a morte do Pai, inconscientemente desejada, nos persegue eternamente. Daí é que surge em grande parte nossa libido homossexual, que retorna vez por outra na tentativa também de um amor impossível. Ou seja, infelizmente aí também não há saída, o bem supremo não existe.

EE – Em resumo, você ainda acredita na psicanálise? Poucos ainda acreditam nela hoje em dia.

AV – Acredito e muito. Marx e Freud são para mim, filosoficamente falando, a base do pensamento moderno. Mas não li como quem lê a Bíblia. Não se trata de sair por aí obrigando as pessoas a fazerem análise ou jogar classe contra classe em nome da Revolução. Mudanças não ocorrem de um dia para o outro. Por vezes, mudanças históricas importantes levam duzentos anos para se concretizar. Não se pode prever no sujeito o tempo que levará para compreender, nem o momento  que o levará a concluir. O mundo muda. Há cem anos eu não estaria aqui, estaria no pelourinho ou na senzala. Mulheres não entravam num botequim sozinhas para tomar um café. Adeptos do homoerotismo eram execrados em praça pública. O processo dialético de conscientização é demorado, tanto em Marx quanto em Freud. Impossível curar alguém in absentia ou in effigie. É necessário que sofra bastante, e por muito tempo, nos volteios da repetição, do recalque e da transferência. Acredito também que não se deve mexer num abcesso enquanto não estiver maduro, pode ser ineficaz e perigoso. 

EE – Deixa eu continuar nessa linha de acreditar ou não. E no Cinema Novo, você acredita? Não acha que eles morriam de inveja do Anselmo Duarte?

AV – O problema do Cinema Novo foi a leitura apressada e panfletária de Marx, o esquecimento de Freud e a tentativa louca de fazer a Revolução com golpes de martelo e patrulhamento. Sempre penso sobre as obras-primas que seriam feitas por integrantes do Cinema Novo, e tantos outros jovens talentosos, se não tivessem a obrigação de colocar o cinema a serviço da Revolução. Isso é o problema de todos os ismos. Acredito na psicanálise feita em mim, não como panfleto freudiano de baixa categoria para angariar adeptos. Isso a religião já faz e desastrosamente. Jamais faria apologia da psicanálise em meus filmes. Cinema é outra coisa. A partir do segundo manifesto, quando Breton colocou o Surrealismo a serviço da Revolução, o Surrealismo acabou. Aí sim Dali, Buñuel e tantos outros puderam fazer obras mais sinceras e menos panfletárias. O mesmo ocorreu com a turma do Cinema Novo após a morte do Glauber, os cineastas se libertaram em parte do jugo do chefe, mas estavam velhos e desgastados pela verborragia cinematográfica panfletária. Foi tarde demais. Quanto a Anselmo, eu iria mais longe e colocaria outros também. Victor Lima Barreto, um gênio. Khouri, que prosseguiu sozinho filmando não se sabe como e com quanta dificuldade. E o cinema paulista dos anos 70, cansado da idiotia verborrágica, foi ao encontro do público. Isso sem falar do dito cinema marginal, que rompeu com dogmatismos na linguagem e temas. Todos eles sempre foram invejados. Mas disso não se podia falar, pois o fanatismo religioso cegou de uma vez só o Cinema Novo e, pior ainda, afastou todos do público, levando a cinematografia brasileira a essa destruidora entropia em que se encontra.     

EE – Você falou do Glauber. Fale mais sobre ele. 

AV – Adoro “Terra em Transe” por exemplo, mas, como em Artaud, Strindberg e outros, a genialidade acabou por ser sufocada pelo projeto de uma arte absoluta, a serviço da salvação e de uma Revolução que nem se sabe qual seria. Ora, salvar o que não está perdido é malhar em ferro frio. Essa confusão, a meu ver, atrapalhou mais o cinema brasileiro do que o ajudou. E isso não foi pouco, fez eco por três décadas e anestesiou o cinema brasileiro por muito tempo. Conheci Glauber pessoalmente muito antes, aos 19 anos, na Avenida Rio Branco, altura da Rua São José, quando trabalhava de office-boy no Banco Lowndes. Caminhamos juntos do Edifício Avenida Central até a Cinelândia. Ele ia para a Difilm, na Rua Senador Dantas. Conversamos sobre José Mojica Marins, que definiu como um primitivo, e sobre cinema brasileiro em geral. Ele me aconselhou a procurar a Difilm e arranjar um trabalho para me iniciar em cinema. Procurei a Difilm, o Luiz Carlos Barreto e lá trabalhei, mas isso ocorreu tempos depois.

EE – Você é um carioca típico, mora na Lapa e frequenta os bares da região. Não acha que o Rio de Janeiro está se tornando um lugar insuportável para se viver?

AV – De uma coisa eu tenho certeza: a Lapa está mais cara. Nos anos 70 e 80, na época dos ônibus elétricos C10 e C6 da CTC, a Lapa não havia se descaracterizado tanto, nem o Bairro de Fátima. Mas ainda é um lugar que tem tradição, tem a procissão, o clube da amizade, a banda do bairro no Carnaval, a feira tradicional, as Kengas e ainda bons restaurantes como o Capela e outros. Óbvio que não frequento mais tanto esses locais como antigamente, estão atualmente muito caros, mas tem outros restaurantes em conta e comida farta como o Paloma, o Monte Alegre, etc. E ótimos e divertidos dancings como o Elite. Agora, é verdade, estão tentando destruir o Rio de Janeiro e por vários motivos. Vou citar apenas um: a Rua do Riachuelo, na Lapa, é a segunda mais antiga do Rio. Veio depois da Primeiro de Março e se chamava Rua Mata Cavalos, dos romances de Machado de Assis. Não tem a mínima estrutura sanitária e viária. Não obstante, no momento estão sendo construídos três hotéis imensos e alguns condomínios também grandes. Quando chove, as águas que vêm de Santa Teresa inundam os bueiros e as tampas pulam fora, as tampas dos esgotos sanitários também pulam e a merda se espalha pelas ruas. Não tem a mínima estrutura. Isso também serve para a questão viária: em determinadas horas, se eu for andando até a Cinelândia chego mais rápido que de ônibus. Quem autoriza essas construções? Existe um planejamento para elas? Existem obras que minimizem o impacto dessas construções desordenadas? Essa é a fogueira do lucro fácil que tudo destrói. Já falei isso no meu curta “Arquitetura Rio – Panorama Urbano”, quando atentei para a destruição de nosso patrimônio, isso nos anos 70. Falei agora apenas de uma rua, imagine o que ocorre em Madureira, Bangu, Penha. Parece que existe um plano para destruir o Rio, sua paisagem urbana e suas condições de moradia. Não à toa foi tombada como patrimônio mundial a sua paisagem. Os caras lá fora pensaram: vamos tombar aquela obra-prima de cidade antes que os habitantes analfabetos e imbecis, amealhados por comerciantes inescrupulosos, a destruam de uma vez por todas.    

EE – Você também conheceu bem a São Paulo dos anos 70. Quais foram suas primeiras impressões de São Paulo? Onde você se hospedava, por onde circulava. Já teve vontade de morar lá?

AV – Adoro São Paulo. Sempre quis morar lá, mas sendo afro-brasileiro e típico carioca, creio que não conseguiria. Mas invejo quem lá mora. Conversava sempre com o Agostinho dos Santos sobre o modo de vida em São Paulo. Sempre me hospedo no mesmo hotel, o Caravelas, na São João esquina da Pedro Américo, próximo a Praça da República. Mas da última vez que me hospedei, ao descer de noite, a rua estava lotada de mendigos vendendo, oferecendo e usando crack. São Paulo também mudou. Minha São Paulo está estampada em imagens dos anos 70, que nostalgicamente revejo sempre, onde cada coisa tinha o seu lugar e sua característica. Ir aos cinemas e teatros era como é hoje em Buenos Aires; eu ia de trem, dormindo, saltava na estação da Luz e dali telefonava para o Khouri ou o Biáfora. É preciso que algo seja urgentemente feito para preservar as características de nossas cidades. Isso passa pela questão da educação também. Vivemos num país de semianalfabetos, governados por redes de televisão que servem aos interesses de anunciantes de produtos consumíveis e descartáveis, e que se necessário for destroem com tudo que existe em nome do consumismo imediatista. 

EE – Afrânio, São Paulo nos traz de volta a um de nosso temas preferido: Walter Hugo Khouri. Uma paixão que compartilhamos. Não vou me furtar a duas ou três perguntas sobre ele. A primeira é simples, mas que você ainda não respondeu: qual o seu filme preferido do maior diretor brasileiro?

AV – Meu preferido é “O Corpo Ardente”. O problema básico do Khouri é com o feminino, esse enigma nomeado mulher. Em “O Desejo” ele leva a questão até suas últimas consequências, que é a pulsão de morte freudiana, fazendo Lilian assassinar Selma num filme moderno, enigmático, testamentário e ousado até hoje. Mas a “ascese”, o “volteio” da pulsão do desejo feminino em torno do objeto, é muito melhor explicitado e filmado em “O Corpo Ardente”. A subida da serra, a perseguição ao cavalo, a chegada ao trono, tudo se inicia ali, com uma poesia e a força de um sacerdócio belíssimo.

EE – Khouri abordava com frequência a homossexualidade feminina nos filmes. O que você tem a dizer sobre isso?

AV – O homoerotismo masculino se dá sobre uma vertente, pois ambos têm o Falo, que reforça o desejo e após conflito o acalma. O feminino se dá sobre uma decepção, pois ambas são desprovidas do Falo, o que as leva a situações paroxísticas e de extrema angústia. Vide “Noite Vazia”, “As Deusas”, “O Palácio dos Anjos” e outros. Essa angústia está estampada nos rostos femininos, e mesmo o equilíbrio proporcionado na referência aos Marcelos em nada acalma essa angústia. Pelo contrário, parece que a acirra mais e a aprofunda. As personagens sempre acham que as outras vão roubar os homens delas e vice-versa. A não-relação sexual, pois a relação sexual não existe, e a impossibilidade de completude está sempre como essencial e é bem presente no universo khouriano. Esse problema é muito sério e grande parte da critica e do público finge não enxergar a verdade colocada por Khouri, pois ela é estarrecedora e queima, assusta e é definitiva como os aforismos de Schopenhauer e a cruel descoberta freudiana.   

EE – E como você enxerga a homossexualidade masculina nos filmes do Khouri?

AV – Ela existe e vem através de Marcelo, em sua dependência das mulheres, que é freudianamente a da mãe. Isso inicia no trauma descrito em “Amor Estranho Amor”, no olhar do Hugo, na procura pelo objeto do desejo e na cena principal com a mãe. Mas já está velada na amizade dos dois homens em “Noite Vazia” e em “Convite ao Prazer”. No “Convite” aquela cadeira de dentista martela na minha cabeça eternamente, a cumplicidade dos dois conversando em volta da cadeira é demais. Só Khouri mesmo... Basta rever os filmes com olhos livres, sem dogmatismos, e reconhecemos a homossexualidade. Está velada da mesma forma que a utilizei em “Longa Noite do Prazer”. É como diria o Nelson Rodrigues: um óbvio ululante. Nos anos 60 e 70 isso era novidade, mas as pessoas em sua maioria confundiam analogia com metáfora; julgavam que “O Corpo Ardente” era um filme sobre uma mulher apaixonada por um cavalo. Veja só o nível intelectual da época. A homossexualidade presente em “Noite Vazia”, por exemplo, não era entendida ao nível de um ritual em uma noite, mas sim como escândalo e folhetim, Nos anos 80, com o tema sendo explorado mundialmente, as coisas se esclareceram melhor, mas o preconceito ainda continuaria. A recepção de “O Palácio dos Anjos”, que foi visto como um filme pornográfico por muitos, atestava isso. A própria crítica intelectual de esquerda também via os filmes do Khouri assim. Leram Marx erroneamente e ignoraram Freud. Hoje é muito menos assustador, ora, pouco importa se estamos heteros, homo ou bi; todos nós estamos fadados a uma incompletude, todo o passo no terreno da sexualidade é falho por essência. Isto porque o absoluto, almejado pelo desejo, aquém da pulsão e da demanda, é infeliz e desastrosamente falho, como denunciava Khouri. Não existe objeto para o desejo, ele é excêntrico. Não há solução porque não há problema, como falava Marcel Duchamp, pois o bem supremo não existe...

EE – Por que, na sua opinião, o Khouri também se tornou uma figura esquecida no cinema brasileiro? Em 2015 quase ninguém mais se lembra dele. Nós somos quase uma sociedade secreta.

AV – Eu acho que jamais poderíamos esperar que a obra de Khouri fosse reverenciada por uma multidão. Khouri é para poucos, pela sua complexidade, por exigir um grau de conhecimento muito profundo e que demanda uma sinceridade intelectual imensa. Diferente dos requisitos necessários para se admirar o cinema de massas e do discurso ideológico, a fala de Khouri exige uma suposição de saber de grande escopo. Castração, objeto do desejo, impossibilidade de existência de um bem supremo, labirintos da sexualidade, a questão do feminino, da ascese, são temas que não são comuns e desnorteiam grande parte da sociedade rasteira e sem profundidade atual. É mais fácil se ater a um discurso religioso, místico ou ideológico. Aliás, tanto faz que essas ideologias sejam mais ou menos marxistas, ou cristãs, dá no mesmo. O importante é que haja um final feliz como nas novelas. Mas a realidade é diferente. Glauber morreu aos 42 anos e o final não foi feliz. "O Futuro de uma Ilusão", livro basilar de Freud, demonstra as desgraças e perigos que rondam os sonhos quixotescos. É muito difícil olhar a verdade destilada por Khouri em seus trinta e tantos filmes. A obra de Khouri nos chama para uma certa agonia, que é a danação do vivente; e que as religiões, os folhetins televisivos, as infantilidades do ideologismo nos tentam ocultar. Khouri é portador de um "fogo", como em Rimbaud e Prometeu, de uma verdade que queima, sendo mais fácil e compreensível tentar inutilmente ridicularizá-lo ou ignorar a sua existência.   

EE – A doença do final do século XIX era a histeria. Charcot que o diga. A do século XX foi a depressão, alimentada pela indústria farmacêutica. E no século XXI, qual é a grande patologia?

AV – A megalomania, creio eu. Sabendo-se mortal e castrado em seu desejo, o homem contemporâneo tenta fugir de sua verdade na procura do objeto ou da arma absoluta. É fácil ser um Deus diante da tela do smartphone e do video game. O difícil é conviver com a angústia.    

EE – Em 2006 você me disse que queria esquecer o cinema. Hoje, está escrevendo um roteiro e pretende voltar a filmar. 

AV – A invisibilidade é cansativa. Já havia pensado em parar e me dedicar somente à coleção de vídeos que socializo entre amigos, mas ao ser lembrado e redescoberto por você, pelo Carlão Reichenbach que considerou o “Longa Noite” um dos sessenta melhores filmes brasileiros, me empolguei e me tornei em parte visível. Resolvi sair da toca e voltar. Estou escrevendo um roteiro. Vou armar um esquema de produção. Vamos ver no que isso vai dar.

EE – Afrânio, uma última pergunta. As pessoas da sua geração começaram a morrer. Perdemos o Carlão Reichenbach e o André Setaro, para citar dois exemplos próximos. Fale como você enxerga a morte e, para você, que sobreviveu a tantas coisas, qual o papel dos sobreviventes?

AV – A morte do Reichenbach, do Setaro, do Alberto Salvá e de amigos próximos me abalaram. Tenho muito medo da morte e agora, praticamente aos 66 anos, mais ainda. Mas não sei por quê, acho que ela está longe. Outro dia conversando com Ana Julieta, uma de minhas filhas, expressei esse sentimento. Ela me respondeu: “Pai, isso ainda está muito longe, você não aparenta a idade que tem e possui uma energia muito grande”. Ao rever, após muitas décadas, num almoço particular meu amigo Georges Lamazière, temos a mesma faixa de idade, recebi o mesmo elogio. Pretendo realizar muito ainda. Isso não é apenas uma necessidade, é uma obrigação de nós sobreviventes com os que se foram. Peço diariamente aos deuses que nos protejam e nos guiem nessa retomada.

sábado, janeiro 17, 2015

Compasso de Espera


"No Brasil não existe preconceito de cor. Negro conhece o seu lugar."

"Compasso de Espera" (1973) poderia se perder em meio a esta frase sarcástica de Millôr Fernandes, ou em meio à hipocrisia dos chavões paternalistas que permeiam a questão do negro no Brasil. Único filme do diretor de teatro Antunes Filho, no entanto "Compasso de Espera" constrói na figura do negro "integrado", do "preto doutor", um artífice muito mais grave que o lugar-comum do reles marginalizado. 

Jorge (Zózimo Bulbul) sabe do racismo porque o enxerga em duas vias: a de dentro (é discriminado) e a de fora (convive em igualdade de mérito com seus algozes). Teve berço, oportunidades geradas por um padrinho branco, a quem tudo deve. Virou publicitário, poeta, homem da sociedade. Um "intelectual orgânico": elemento possível de transformar o mundo, pois atua confortavelmente nele.

São as escolhas do roteiro, baseado em um estudo de Florestan Fernandes, que fazem do filme, passados mais de 40 anos, ainda atualíssimo. Sim, o negro está na universidade, ocupa cada vez mais espaços que não ocupava. Porém, continua gastando sua energia vital, seu ânimo, com o fato de ser negro. Silenciosamente lhe dão com uma mão para tirar com outra. Jorge é testemunha de que nunca será branco, apesar de viver como tal.

"Compasso de Espera" é dos melhores filmes políticos já feitos no Brasil. Provavelmente o melhor. Esqueçam os cinemanovistas, as alegorias, o Eldorado de Glauber: aqui estamos em São Paulo, onde a barra sempre pesa mais. Ele se apaixona por Cristina (Renée de Vielmond), a paulista quatrocentona. É amante de Ema (Elida Palmer), a diretora de agência de publicidade. Briga com outros negros, inclusive com a irmã, que pedem a ele uma atitude de confrontamento e revolta. Nas vias de fato, ele apanha. Quer morrer. Não sabe o que fez de errado. Não sabe que está no lugar errado.

A maneira como Antunes Filho retrata Jorge em preto e branco também é política e apaixonada. Equivale a Alberto Salvá seguindo Vianinha em "Um Homem Sem Importância" ou Rubem Biáfora espiando Sergio Hingst em "O Quarto". Nota-se a influência do cinema inglês dos anos 60, do "Homem Invisível" de Ralph Ellison, de um discurso importado dos Estados Unidos que – surpresa – cai bem na realidade paulistana. Malcolm X se defronta com Martin Luther King e sapateiam em desespero no viaduto do Chá. 

O filme demorou anos para ser finalizado, com filmagens entre 69 e 70 e lançamento apenas em setembro de 75. Poderia ter sido lançado ontem: como eu disse, é atualíssimo. Tirem os hippies e coloquem hipsters, mudem a agência para a Vila Olímpia. A paulada é a mesma.

Curiosidade é ver a cantora Rosa Maria bem novinha (havia saído direto de "Hair" para o set), a nudez magrela de Renée de Vielmond e Stênio Garcia representando um homossexual, séculos antes de encarnar Bino, o caminhoneiro macho de “Carga Pesada”. Só que nada disso importa diante da escolha preciosa de Bulbul para protagonista. Exemplo de negro "integrado", casado com uma branca (a cineasta Vera Figueiredo), morador de Ipanema, Bulbul era um alter ego de Jorge e vice-versa. Na vida real, por diversas vezes foi parado pela polícia ao tentar entrar no edifício onde morava. E não duvido que alguma vez tenha sido agredido na praia, como o personagem.

Escrevendo sobre o filme no jornal Última Hora, em abril de 1976, João Carlos Rodrigues revelava que “os muros do Rio ainda estão pichados com dizeres 'viva o apartheid'”. Adiante nos conta que "num deprimente debate no MAM um jovem negro chegou a declarar que não confiava no filme por ser dirigido por um branco". O debate a que João Carlos se refere havia acontecido em 23 de março, na série Perspectiva 76Traindo o mito da democracia racial brasileira, as duas imagens cairiam bem na tela, reafirmando toda a depressão em que Jorge se exaure. 

Outra polêmica surgida na época diz respeito aos diálogos. Bulbul é dublado por Roberto Maya, um branco. E suas falas são quase sempre em tom formal, empolado. Antunes Filho se defenderia afirmando que o ator teve outros compromissos e não pôde ser utilizado na dublagem. E que a voz forçada era intencional, para denotar a insegurança do protagonista. Para finalizar, arrematou: "Através do negro quis falar de uma geração ferida, a minha geração que falou muito e nada fez". 

Apesar de não vivermos uma "experiência negra", eu e vários leitores podemos usar "Compasso de Espera" para o exercício simples de nos colocarmos no lugar do "outro". E o "outro" nem precisa ser negro. Pode ser a mulher que sofre discriminação apesar de possuir atributos iguais ou melhores que seus pares. Ou o homossexual, de quem riem pelas costas e que nunca é promovido na firma.

Não à toa, "Compasso de Espera" cortou um dobrado na Censura. Esmiuçado, acabou liberado sem cortes, mas foi fracasso de público e até hoje nunca revisto com a profundidade necessária. A solidão de Jorge, sua história, são de uma corrosão absoluta. Levanta o espelho, permanece subversivo. Para alguns, melhor esquecer e não se ver refletido.