sexta-feira, setembro 19, 2014

Além da Paixão


A melhor história sobre "Além da Paixão" (1985), sétimo longa-metragem de Bruno Barreto, aconteceu fora das câmeras. Sabe-se lá por quê, Bruno escolheu como cenário a Boca do Lixo paulistana, mais especificamente o entorno da Rua do Triunfo. Conseguiu que a área fosse interditada em dia de grande movimento e, assim, criou transtornos para que os locais chegassem aos bares da região, como o Soberano. Dentre outros, Alfredo Sternheim e Jean Garrett estavam presentes. 

Bruno Barreto invadindo a Rua do Triunfo e atrapalhando a vida dos diretores da Boca é uma alegoria belíssima, de tresloucada criatividade. Deixo o resto para o leitor usar sua inteligência. A crítica ao filme poderia acabar aqui. Ponto final. 

Justiça seja feita (e ironia à parte), "Além da Paixão" merece ser olhado além deste nocaute metafórico. Tem roteiro de Antonio Calmon. E Regina Duarte emulando pela milésima vez a mulher casada, insatisfeita sexualmente, que resolve sair pelo mundo dando seus pulinhos. 

Estávamos em 85, os cinemas das capitais viviam repletos de pornografia decadente e o Tancredo havia tido aquela morte esquisita no Hospital das Clínicas. O Brasil ardia e as donas de casa ousavam: a personagem de La Duarte, Fernanda, começa a sonhar com travestis, faz uma tatuagem e se mete em uma rota de cocaína.

É a mais pura verdade, crianças. Sem medo de ser feliz, brilha uma estrela: a namoradinha do Brasil encarnava com perfeição esses papéis. Aqui ela é tão sutil e blasé que quase acreditamos na humanidade do enrosco. Depois do sonho freudiano, Fernanda atropela Miguel (Paulo Castelli) e parte em um on the road existencialista com o rapagão. Trepam adoidado e, com o costumeiro apuro técnico e a fotografia de Afonso Beato, Bruno Barreto transforma pouco a pouco a transa em algo previsível, mas envolvente.

Por incrível que pareça, aquele papel não era de Regina e sim de Renata Sorrah, que aguardou quatro meses o início das filmagens – diziam que o roteiro havia sido escrito para ela – antes de ser preterida. Com Regina Duarte, ficou mais fácil a produção vender-se como um libelo feminista, inclusive promovendo exibições em cabines exclusivas para socialites, líderes de associações e demais mulheres. 

As feministas no cineminha do Hotel Méridien, que nos anos 70 e 80 odiavam quase tudo, não devem ter percebido certas sutilezas. A melhor delas, claro, a esperança vencendo o medo e Regina Duarte branquinha e deliciosamente nua. Vou acabar apanhando, mas notem: foi justamente porque o politicamente correto venceu a guerra que o sexo se tornou pudico nos dias de hoje. Fernanda e Miguel buscam a salvação através do corpo. Nudez bárbara, sem picuinhas ou culpas ideológicas. 

Por um mundo com mais Roberto Freire e menos Betty Friedan, podemos enxergar em Fernanda não a vontade de se vingar do falo matrimonial opressor, mas o desejo de colocar o tesão à prova de qualquer suspeita futura. Encarar o mistério, levá-lo ao extremo para desconstruí-lo, até não restar nada. Assumir o seu câncer, como diria Nelson Rodrigues, em vez de histericamente combatê-lo e sublimá-lo.

Quando ela volta para o marido (Flávio Galvão), os idiotas da objetividade gritam felizes: moralismo! Só que o roteiro quer nos dizer outra coisa: a aventura perdeu a graça. O mistério findou-se. Tudo o que tem o dedo de Antonio Calmon – que assina também a co-produção – traz a marca de um infinito cinismo. De uma incredulidade em finais felizes, ainda que eles apareçam na tela.

Sendo assim, apesar do pastelão na Rua do Triunfo, podemos combinar que Bruno Barreto soube aproveitar um ventinho de perversão calmoniana e fez um dos seus filmes mais sólidos e adultos. Não satisfeito, produziu belas imagens: a Avenida Paulista nos anos 80, Patrício Bisso maravilhoso, Zizi Possi em uma jukebox lúdica, no meio do Réveillon. “A mulher é o negro do mundo”, já cantava John Winston Lennon. Estreando no Rio em 13 de maio de 1985, “Além da Paixão” acertou em cheio.

4 comentários:

Anônimo disse...

Andréa, acredito que este texto sobre Além da Paixão é um dos mais espirituosos aqui do Estranho Encontro. Divertidíssimo e com excelentes sacadas! Abraço,
Márcio/MG

Adilson Marcelino disse...

Querida,
Eu gosto do Além da Paixão.
E, mais ainda, eu adoro o Paulo Castelli.
Pena que abandonou a carreira de ator.
Beijo
Adilson

Andrea Ormond disse...

Valeu, Márcio, gostei bastante de escrever o texto. Dá para fazer esses jogos de palavras com a situação política da Boca, o tempo presente e todo o case da Regina Duarte. Grande abraço.

Adilson, o Paulo Castelli tem uma carga forte, não? Ele remete aos anos 80, à televisão, ao Brasil que a gente se acostumou a ver, há uns anos atrás. Beijo grande, querido

ADEMAR AMANCIO disse...

A Regina Duarte pós namoradinha do Brasil,sempre representou a mulher liberada,mas com um certo recato.Neste filme,ela protagoniza cenas que lembra mais "A Dama do Lotação" de Sônia Braga,que "Malu Mulher",vivido pela atriz.