terça-feira, setembro 30, 2014

Águia Na Cabeça


"Bicheiro jurado de morte por Jece Valadão"

"Christiane Torloni tira roupa em boate da Zona Sul"

"Zezé Motta surrada e humilhada na cama pelo amante"

Em março de 1984, os jornais cariocas apareceram com estas sensacionalistas manchetes no rodapé de páginas internas. Lembravam os enunciados das revistas de fofoca, sempre usando o velho macete de confundirem o artista com suas personagens. Mas tratava-se de um golpe publicitário, divulgando "Águia na Cabeça". E todos os reclames invariavelmente terminavam com a frase: "O Primeiro Filme com a Coragem de Mexer no Jogo do Bicho".

Sobre o jogo do bicho, Valério Meinel faria muito melhor no livro "Avestruz, Águia e Cocaína", de 1986. O que não torna “Águia na Cabeça”, dirigido por Paulo Thiago, nem de longe, um mau filme. É presepeiro, violento e cheio de sexo. Tem tudo aquilo que transformou o Rio de Janeiro em um lugar único na civilização ocidental: malandragem, escola de samba, macumba e Copacabana. 

O início daquele ano pegava a cidade vivendo um dos seus deliciosos momentos: governo Leonel Brizola, escalada inflacionária, violência fora de controle. Daí nasce o discurso desvalorizado, niilista, que chama Copacabana de “esgoto” e cala a polícia com petelecos. Todos são hipócritas, em maior ou menor grau bandidos. Nada salva.

A gênese de "Águia na Cabeça" esteve em outro roteiro do próprio Paulo Thiago, intitulado "Bar dos Inocentes". Quando resolveu transferir sua ação de um bar e um executivo para as bocas cariocas e a turma do jogo do bicho, contou com a ajuda de Aguinaldo Silva, Doc Comparato e Joaquim Vaz de Carvalho.  Havia pouco a criar: aquela história, de fato, pulsava nas ruas. 

Apesar de se propôr a ser um filme denúncia, o que mais interessa em "Águia na Cabeça" é o drama de César (Nuno Leal Maia), agregado e laranja de um senador corrupto (Joffre Soares), que lava dinheiro para o jogo do bicho. Querendo poder, César mata o padrinho e se casa com a filha deste (Xuxa Lopes). Enquanto isso, um jardim zoológico de bicheiros desfila na tela: Canedo (Jece Valadão) e Turco (Hugo Carvana) fazem as honras da casa. Canedo é amante de uma mãe de santo (Zezé Motta), enquanto César tem caso com uma dançarina (Christiane Torloni) da Barbarella, boate na avenida Prado Júnior. 

O ethos carioca instala-se no esplendor de suas plumas, começando pelo título: "na cabeça" era uma expressão popular graças ao slogan "Brizola na Cabeça", da campanha para governador de 1982. Criação do vice presidente do PDT, Bocayuva Cunha, quase tudo ganhava "na cabeça": o Flamengo, as modelos que despontavam, o trecho preferido da praia.

Uma característica interessante de "Águia na Cabeça" é a escolha das locações: Paulo Thiago conseguiu, por exemplo, filmar o bunker de Canedo dentro da antiga fortaleza de Tenório Cavalcanti, em Duque de Caxias. Já a casa do senador assassinado era a residência da socialite Vivi Nabuco (que sabiamente viajou durante as filmagens). As cenas do desfile de carnaval eram reais, da escola Unidos da Tijuca, que em 83 desfilava o enredo "Devagar com o andor que o santo é de barro". Zezé Motta estava ao mesmo tempo de personagem e destaque na vida real. E uma cena de assassinato foi filmada na concentração da escola. 

Passados trinta anos e dezenas de simulacros de jogo do bicho depois (assistam a série "Filhos do Carnaval", da HBO), "Águia na Cabeça" virou um clássico. Aliás, o Rio oitentista, do "Jornal do Brasil", das banquinhas de bicho, do populismo desenfreado, da Zona Sul com cara de Madureira e dos botequins pé-sujo começa a se tornar nostálgico, diante da cidade revendida pela especulação imobiliária no presente 2014. 

Décadas atrás, os cariocas estavam acostumados a encarar qualquer grilo com a certeza infindável de uma superioridade divina. Esta "superioridade" manifestava-se em patuás, mandingas e outras mumunhas – todas presentes no filme. A maior delas, claro, o amor atávico ao espaço urbano. Não à toa, as cenas rodadas fora do Rio trazem um tom depressivo, inóspito. Nascido em Minas, o carioca Paulo Thiago sabia das coisas.

Sabia tanto que escolheu o Bangu Atlético Clube para uma pré-estreia em 11 de fevereiro de 84, com a presença dos jogadores do time principal. Bangu era também a terra de Castor de Andrade, banqueiro e "bacharel de Direito" em que o personagem de Jece Valadão foi totalmente inspirado. Ainda na toada pitoresca, a estreia em uma segunda-feira de carnaval quase foi embargada por integrantes da Portela, que implicaram com a "águia" no título e quiseram homologar sua benção à produção em um convescote na Embrafilme, na manhã de 29 de fevereiro. 

Felizmente tudo acabou bem, "Águia na Cabeça" estreou e deu vazão às tradicionais e alucinadas discussões cariocas que nunca levam a nada, reunindo figuras como o psicanalista Eduardo Mascarenhas e mais uma trupe reunida no Centro Cultural Cândido Mendes. Depois, com certeza, esticaram no Caneco 70, paqueraram gatinhas de bermudas Company, xingaram o Figueiredo, louvaram a construção dos CIEPS e, passando na praça Nossa Senhora da Paz, fizeram uma discreta fezinha no bicho. Que ninguém é de ferro.  

4 comentários:

ADEMAR AMANCIO disse...

Vi recentemente esse filme,e é tudo isso,e só isso mesmo.Boa análise.

Anônimo disse...

Oi, Andrea.
Parabéns pelo blog (muito obrigado como leitor).
Tenho uma pergunta para você: que filme é esse, é brasileiro?

http://nativaperiodico.files.wordpress.com/2012/06/desejos.jpg?

Ivica Radoja

Andrea Ormond disse...

Ademar, "Águia Na Cabeça" é um must.

Ivica, obrigada. Não consegui identificar a cena. Certeza que é filme brasileiro?

f40niteroi disse...

Descobri esse site recentemente, na busca por informações sobre esse filme. E encontrei muito mais do que isso. Sua análise holística sobre a ambientação e o zeitgeist carioca ( e brasileiro) é brilhante. Já considerou a ideia de escrever um livro sobre o cinema brasileiro ?