sábado, janeiro 04, 2014

Amor, Palavra Prostituta


Imaginem que a censora passou laquê no cabelo, guardou a lata na gaveta marrom do escritório e começou a falar. Suava, elétrica, no meio dos raciocínios que pareciam geniais e brotavam em cascata. Resolveu passar tudo para o papel e desancou item por item do filme. O nome: “Amor, Palavra Prostituta”. O diretor: Carlos Reichenbach. O ano: 1981.

A fita saiu do coração da Boca do Lixo, direto da Rua Vitória nº 140/142, São Paulo, sede da Brasil Internacional Cinematográfica: a distribuidora. O projeto reuniu a Íris Produções (de Jean Garrett), a Cláudio Cunha Cinema e Arte, Alfred Cohen, Éder Mazzini e dinheiro do próprio Reichenbach. Quando chega no deserto do CSC (Conselho Superior de Censura), as manchas de cigarro e as marcas de gordura começam a aparecer no processinho de papel.

Obviamente, uma saraivada de pareceres sugeriu cortes e outras finesses jurídicas. Ao ouvir as novidades, Carlos Reichenbach deu as costas. Chutou a versão bandida do filme. Tinha fúria nos dentes, a vontade de prosseguir no “cinema de alma”, o slogan que tanto divulgou. Havia chamado Inácio Araújo para o roteiro e a assistência de direção. Com “Amor, Palavra Prostituta” visitou temas que se não eram bem uma estreia, sem dúvida falavam bastante ao diretor.

“Amor” não é exatamente uma inauguração de motivos. Encontramos nele a mesma dupla sensorial de Orlando Parolini-Roberto Miranda (estrelas do curta “Sangue Corsário”, 1979); encontramos a mesma luta entre liberdade e otarice (“Império do Desejo”, 1980); encontramos o mesmo ceticismo que se mistura com pulsão de amar (novamente “Império do Desejo”). A alma de Reichenbach já havia tateado, antes, a atmosfera do longa-metragem.

Podemos somar a esses dados um outro: a cinefilia do diretor. Orlando Parolini (crítico, amigo, poeta, ator) caminha no centro de São Paulo. Ele vai à Praça da República, entra no Marabá, lê os cartazes. A estratégia imagética nos remete diretamente a “Sangue Corsário”, cujas galerias e papos de devoção mútua entre Parolini e Miranda arrancam lágrimas de muito marmanjo. Aliás, cinema já era a maior diversão para Reichenbach, há anos. Lembrem-se dele como figurante em “O Despertar da Besta/Ritual dos Sádicos” (1969, José Mojica Marins) ou dirigindo um filme dentro de outro, em “Lilian M.: Relatório Confidencial” (1975).

Para quem gosta de caçar curiosidades, ganhará uma mariola se descobrir os letreiros de “Giselle” dando sopa em “Amor”. O clássico de Carlo Mossy arrancava o couro nas bilheterias de 1981 e, muito provavelmente, ajudou a destruir a flora capilar de muitos dos nossos estimados censores.

Na trama de “Amor”, quatro personagens se entrelaçam. Fernando (Orlando Parolini) é amigo de Luis Carlos (Roberto Miranda) e casou-se com Rita (Patricia Scalvi). Luis Carlos é o boa-pinta que pega várias, para deleite da mãe fetichista. Meu filho é o poder, por ele morro, por ele sonho. Luis Carlos ataca Lilita (Alvamar Taddei), a quarta personagem-chave.

Fernando “não trabalha, não fala, não trepa”. É um vate encucado, porém menos iconoclasta do que a mise-en-scène de “A Ilha dos Prazeres Proibidos” (1979). Em vez de explodir bombas e pessoas, Fernando é apenas um projeto de beatnik da periferia, clochard de Tremembé. Esquizóide que rouba dinheiro de cadáver, como na espetacular cena que remete a Soren Kierkegaard, na devoção entre o certo, o errado, a experiência, a angústia. O dinamarquês inspirou “Amor” – como, de resto, já havia inspirado “Império do Desejo”, longa-metragem mais exacerbado e inspirador de Reichenbach. A cena lembra a um só tempo uma fábula como também uma vinheta filosófica, que dá origem a outras viradas na história.

Curioso que os dois casais fazem uma viagem, como muitos dos personagens do diretor. Saem de um ponto, vão a outro e retornam transformados. Em “Anjos de Arrabalde” (1987) a fugidinha à Praia Grande era kitsch; em “Amor”, a represa Billings é trágica. Alguns momentos dão uma acalmada no horror: o aborteiro (Maurice Legeard, cineclubista) só falta cuspir caroços de tangerina, como os ginecologistas de Nelson Rodrigues. Quem o dubla é o próprio Reichenbach, com o inconfundível vozerio de trovão – ou será de black power americano? No entanto, da metade do filme em diante há uma piora no ceticismo. Basta dizer que o evento que une Fernando, Luis Carlos, Rita e Lilita é um aborto. Da última.

Percebam que o aborto não foi escolha de Lilita, mas sim uma imposição machistóide e estúpida de Luis Carlos. Até aí, temos o esperado. O inusitado, porém, se esconde nas consequências da cirurgia. Elas reativam o lado paternal que Fernando julgava morto e fazem com que ele abandone o ar de indiferente: sua maior característica. O fato nos leva à idealização do papel do artista perante a vida. Faltava a Fernando a tragédia, o ambiente que ele abraça como seu verdadeiro lar. No apelo trágico, Fernando resplandece. E é neste sentido que surgem as demais (e belas) cenas do processo de cura de Lilita, esvaída em sangue.

Mamãe não sabe, mas Luis Carlos idealiza Fernando como homem-guia. Admira o amigo pela inteligência, mas acha um porre sua pobreza. É o combate entre o burocrata engravatado versus o cabeludo louco. O leitmotiv, que é a essência do drop-out, segue a contracultura e uma fila de expressões artísticas do século XX. Na outra ponta dos casais, outra dinâmica: Rita e Lilita têm mais em comum do que a eufonia dos nomes. Elas são “o arrabalde”. Rita é a figura de proletária, marca de “Garotas do ABC” (2003) e “Falsa Loura” (2007). Vestiários, fábricas, tudo conforme o culto de Reichenbach a Valerio Zurlini.

Acontece que Zurlini e (quem diria) até Kierkegaard, se travestem da mais pura Boca do Lixo. O lugar cheio das diversidades, como demonstraram Walter Hugo Khouri e Jean Garrett, cada qual ao seu modo. A misoginia aparente (o estilo de Luis Carlos) pode ter levado muito tiozão aos cinemas. Ver um monte de mulher pelada e até (sem que ninguém estivesse por perto) uns membros viris na tela. Porém, também tiveram que engolir a mão poética do diretor. Diretor que, por sua vez, misturava-se no deboche típico do Bar Soberano: um pé-sujo no meio de uma tentativa de indústria. A Boca era um território complexo, nunca se esqueçam disso.

Frases ótimas explodem a toda hora: “Me deixa na frente do Juventus”, diz Rita para Dr. Bóris (Benjamin Cattan). Ok, o time da rua Javari é um luxo, mas outro luxo são as divas da Boca. Se “Amor” tem Patricia Scalvi e Alvamar Taddei, o futuro “Rainha do Fliperama” (1982) terá Zilda Mayo em versão pop, ao som de Al Green.

Reichenbach ainda não havia começado a compor as trilhas sonoras dos próprios filmes. Benjamin Cattan (o advogado irreprochável e neohippie de “Império”) arde na música erudita de Cesar Frank. Dr. Bóris é gancho dos personagens de “Lilian M.”. Um dos muitos tipos masculinos devorados por Lilian: o velho rico, impotente, solto em delírios de poder, e que agora cai de quatro por Rita.

“Amor, Palavra Prostituta” burilou tendências e esperou o aval externo para vingar no Brasil. Ao aterrissar na Bélgica, rodou na versão original e desprezou a versão picotada pelo CSC. Apesar de anti-establishment por natureza, abocanhou prêmios e recebeu a bandeira branca do sucesso. Sucesso encardido, soturno, telúrico. “Amor Palavra Prostituta” é um dos pontos de chegada daquele senhor Carlos Oscar Reichenbach Filho – que fez questão de assinar dessa maneira o longa-metragem. Uma elegia à origem paterna, como o próprio filme, que guarda as feições, o amor e o rosto do pai. 

6 comentários:

Afranio Vital disse...

Lindo texto. Linda análise. " A alma de Reichenbach já havia tateado, antes, a atmosfera do longa-metragem." como Khouri em Noite Vazia, Carlão amadureceu; neste filme Reichenbach bota pra quebrar, e de quebra, nos mostra que São Paulo existe.Apesar do cinema novo e carioca negar, na época,sua existência - o que parece( mas não é )ser natural. Onde estiveres Carlão saiba que muitos te compreenderam, saiba que não foi em vão...

Ailton Monteiro disse...

Que texto lindo, Andrea. Sou doido pra conseguir esse filme, mas até agora não tive sucesso. E dá uma saudade do Carlão...

Andrea Ormond disse...

Afrânio, o "Amor, Palavra Prostituta" é uma das provas de que a Boca do Lixo não precisa de ódio (pra ser detonada) nem oba-oba (pra ser defendida). Precisa de discernimento. Nem todos os filmes eram talentosos, mas este é, como tantos foram. A presença do Carlão no nosso cinema é um negócio seríssimo. Ainda mais nesse meio "artístico" tão cheio de deslumbrados. Carlão amava o que fazia, com arte, erudição, visão de longo prazo. Não foi em vão, foi grande...

Obrigada, Ailton. Essa ausência do Carlão é estranha, morte não combina com ele...

Sergio Andrade disse...

Belíssimo texto, ajudando a iluminar muitas passagens.

Andrea Ormond disse...

Obrigada, Sergio. A obra do Carlão é muito ampla, cheia de referências e de possibilidades estéticas. Além disso, é necessário iluminar mesmo certas passagens do cinema brasileiro. Separar o joio do trigo. Do contrário, virá uma ditadura oposta: a defesa intransigente (e ditatorial) da Boca, pelo simples fato de ter sido escorraçada antes.

Alberto Quadros disse...

Cansou-se?Custa a crer que o autor deste artigo desistisse do blog. Morreu? Não acredito. É preguiça? Então porque escrevcu esta mensagem, os que visitam o seu blog têm direito a mais. Ande, continue, faça mais análises ou escreva o que lhe venha à cabeça, o que eu faço quando me falta o mínimo de inspiração para a minha mensagem quase diária no meu www.sonhoscomsorte.blogspot.com.