quarta-feira, novembro 20, 2013

Pedro Mico


Legítimo representante do folclorismo carioca, do especialíssimo cinema brasileiro dos anos 70 e 80, “Pedro Mico” (1985) passou a ser visto menos por suas qualidades e mais, muito mais, pelos olhos da perseguição implacável que seu diretor, Ipojuca Pontes, veio a sofrer de certos setores da intelectualidade de esquerda.

Antes de ser apedrejada: não sou a favor de Ipojuca Pontes e contra a esquerda. Muito menos sou a favor da esquerda e contra Ipojuca Pontes. Quando Ipojuca adentrou o edifício Bolo de Noiva e “conspirou” na transição dos governos Sarney-Collor pela extinção da Embrafilme, enquanto hoje escreve artigos e defende seus posicionamentos, nada disso contamina uma obra concebida em outra realidade. Do medo de enfrentar os filmes e extrair deles um verdadeiro sentido é que se cria a análise preconceituosa, o chavão maldoso, a burrice curtida no Facebook.

Portanto, crianças do meu Brasil, mente aberta: esqueçam do Ipojuca Fumanchu, bicho papão e  Gargamel. O barato é se lambuzar de “Pedro Mico”.

Pelé atua 15 minutos sem dar uma palavra. É ele o personagem-título, malandro alfa do morro do Cantagalo. O Cantagalo, para quem não sabe, é um complexo de favelas entre Copacabana e Ipanema, que ainda conta com o reforço do Pavão e do seu filhote Pavãozinho. Em algum lugar entre essas gentes está o cafofo de Pedro: verdadeira obra-prima da engenharia balança-mas-não-cai, na beiradinha de um precipício. O interior do barraco – que googie style – foi encomendado pela produção ao arquiteto Oscar Niemeyer. É até bem ajeitado, melhor ainda com o enfeite da mulata, que não se chama Leonor nem Dagmar, mas sim a magrinha apetitosa Iris Nascimento.

Filmar “Pedro Mico”, peça de Antônio Callado, era ideia antiga de Ipojuca Pontes. Ainda em 1981, cogitava-se o cantor Harry Belafonte para o papel. No final de 1982, já se falava em Pelé. Embora em 83 muito se divulgasse sobre o filme na imprensa, e tenha sido efetivamente rodado entre 84-85, terminou estreando, em circuito comercial, somente no distante dezembro de 87. Edson Arantes do Nascimento dublado por Milton Gonçalves com leve sotaque lusitano (?), e a peça, típica dos anos 50, readaptada para o Rio oitentista, repleto de Fuscas, Variants e Passats amarelos e laranjas.  

Bem ao espírito da época, Pelé poderia ter profetizado “love, love, love” ou dado novamente o vaticínio de “olhai para as criancinhas”. Preferiu, em entrevistas durante a filmagem, a modéstia: afirmou que gostaria de ajudar o cinema brasileiro como já havia ajudado o futebol, além de discorrer sobre atualidades, principalmente a campanha “Diretas Já”. Não se pode dizer que o rei do futebol tenha repetido a performance de craque nas telas: aos 43 anos, contracena com a grande Tereza Rachel, beirando os 50, no papel da prostituta Aparecida, e acaba (ops!) comido por ela.

Tereza Rachel, mulher de Ipojuca e dona do velho Terezão – teatro onde o rock brasileiro com cara de bandido se apresentava nos anos 70 – desfila em 1985 uma bela silhueta MILF, principalmente na famosa cena em que, nuazona, escala os atributos de Pelé. Outro que está em forma espetacular é Procópio Mariano, do alto dos seus 160 kg de puro Beco da Fome, recebendo aquilo que Mr. Catra diria, no século XXI, que não se nega a ninguém. Querem mais? Rivalizando com Pelé, Tereza e Procópio, surgem Jorge Dória, Átila Iório e Ivan Cândido torturando um anão, e o majestoso cineasta negro Afranio Vital, em uma ponta à la Nat King Cole, tocando piano na festa de bacanas do Edifício Chopin.

Sim, metade da fauna guanabarina diz presente a Ipojuca – e ele deve se lembrar daquela glória com saudades. Pelé, mestre em falar na terceira pessoa, ainda complicaria as coisas assumindo, durante certo tempo, a persona de Pedro Mico, afirmando que tinha virado mesmo o personagem quando chegou ao Cantagalo, e complementando: “Pedro Mico tancredou”, além de cobrar do governador Leonel Brizola melhorias na comunidade. Mais Rio-85, impossível. Aliás, enquanto estava no Rio dublando o filme, Pelé teve sua casa em Santos assaltada e por isso foi substituído por Milton Gonçalves. Mais Brasil, impossível. 

A moribunda censura chegou a acusar “Pedro Mico” de “triolismo” – exposição de sexo grupal, termo tão antiquado quanto “tribadismo” para lesbianismo e “tocamento desonesto” para sexo anal –  o que deve ter contribuído um bocado para o enorme atraso da estreia. A lenda conta que, no dia 30 de novembro de 1987, pré-estreia no Ricamar, em plena Av. Nossa Senhora de Copacabana, pouca gente compareceu. Cristiano Requião, membro da equipe, narrou a ocasião na entrevista que deu ao blog: “Não tinha público. Boicotaram o filme, não havia ninguém, só meia dúzia de pessoas. O Sanin Cherques virou-se para mim: 'Pô, Cristiano, vamos ter que arranjar alguém...' Chamávamos as pessoas na rua. 'Você não quer assistir a um filme agora? É com o Pelé, ele está aí no cinema!' Respondiam: 'Ah, vai tomar no cu!...' (...) Quem podia entrava no cinema. Mas imagina quem? O povo da rua. A equipe e o elenco subiram para o mezanino e conseguimos colocar umas oitenta pessoas. O público espinafrava, dava gargalhadas.”

Na fala de Cristiano, existe uma informação oculta: a eminência parda de Sanin Cherques, roteirista e diretor-assistente em mais de 30 filmes, que batia bola com Carlo Mossy, Jece Valadão, entre outros, e tanto contribuiu com sua experiência para o cinema no período. Irmão de Jorge Cherques – figuras manjadíssimas do Shopping dos Antiquários, coração de Copacabana e onde se localiza o antigo teatro de Tereza Rachel – Sanin é menos lembrado, porém fundamental na compreensão de “Ódio” (1977), algumas pérolas da Magnus e qualquer coisa de que tenha participado.

Revisto trinta anos depois, “Pedro Mico” chama a atenção não apenas por suas precariedades – embora tenha sido uma produção cara. Inscreve-se bonito, e com folgas, nas melhores antologias do gênero policial brasileiro, dando ao apreciador quase tudo o que ele espera. Reparem na frase: “Mandem o pessoal da imprensa se foder, porra!”. É da lavra de gigantes como Valério Meinel, José Louzeiro, Octávio Pena Branca. Ou a epígrafe de Bertold Brecht em “Die Moritat von Mackie Messer”; a trilha sonora de “Aquarela do Brasil” na voz de Wilson Simonal – portfólio também amaldiçoado pelos nenéns neofascistas. Como sói ver, “Pedro Mico” daria um livro, por tantos múltiplos detalhes, histórias e possíveis leituras. Libertem o filme e o deixem respirar, por favor. 


*Na foto, da esquerda para a direita: Walter Carvalho, Sanin Cherques, Pelé, Ipojuca Pontes e Afranio Vital. Foto de Marcelo Jesuino.  

7 comentários:

BLONGMONKY disse...

Apesar de tudo, acho uma grande sacanagem o Ipojuca e seus filmes serem limados da visão geral, não passam nem no Canal Brasil... só mesmo quando rola na rede...

João Carlos Rodrigues disse...

Pelé é o maior pé frio do cinema, e não apenas nacional. Filmou até com John Huston e deu errado. Aqui sua biografia precoce ("O rei Pelé", 1965, direção Carlos Hugo Christensen) é dada como lambida pelo fogo, embora eu já tenha ouvido falar que ele tem uma cópia em 16 mm (nada mais natural para um narciso milionário, convenhamos). E "Os trombadinhas" apesar do diretor Palma de Ouro, é bem ruinzinho, hein? Na época do "Pedro Mico" o Ipojuca ainda não tinha caído em desgraça (exceto como chato de galocha) e ninguém tolerava Pelé. E a peça também não é boa, muito idealizada, malandro de butique, com todo respeito pelo Antonio Callado e tb pelo Paulo Francis que dirigiu a peça com o Milton Moraes pintado de preto (e a esquerda da época nem notou). Resumindo: Pelé no cinema é pé frio.

Andrea Ormond disse...

Blogmonky, esse que é o busílis da coisa. Independente das ressalvas, um filme é um filme. Ele precisa ser exibido, ao invés de ser embarreirado.

João, devemos torcer para que o Pelé não se dedique à física nuclear ou então os foguetes brasileiros nunca sairão do papel rs No "Os Trombadinhas" existe pelo menos uma frase antológica, em que ele manda um xingamento com toda as pompas possíveis, encarnando um Super-Homem tropical. Para a persona higienizada (amigo da Fifa, da ocasião e adjacências), não deixa de ser curioso. Em retrospectiva, até podemos dizer que no cinema ele tentou exorcizar isso, em sonhos loucos de noites de verão, mas os filmes não ajudaram. Agora que está idoso, quem sabe não tenta de novo? Quem viver verá!

Anônimo disse...

Querida, quantas saudades.
Adoro a Tereza Rachel, a inesquecível Amante Muito Louca.
Bjs
Adilson

Andrea Ormond disse...

Adilson, que saudade. Ou eu vou a BH ou você vem ao Rio, porque assim não dá! Concordo, acho que a Tereza no filme do Denoy de Oliveira está um estouro. Beijo

Unknown disse...

Pelé é pouco lembrado por sua participação em O PREÇO DA VITÓRIA (1959), filme ruim de um diretor bom (Oswaldo Sampaio, do belíssimo A ESTRADA). Duplamente pé-frio: Pelé + futebol. Pelé volta a trabalhar sob as ordens de Sampaio décadas depois, em A MARCHA, filme pouquíssimo visto no qual, uma vez mais, tudo deu errado - com os herdeiros de Afonso Schmidt, em cujo livro o filme se baseava, processando os produtores. Pelé faz um escravo liberto e guerreiro. Queria muito ver A MARCHA.

Andrea Ormond disse...

Unknown, faltou assinar o post, quem és? rs Em relação ao Pelé, fico apostando em uma volta triunfal, à moda do Laurence Olivier ou do Procópio Mariano, que ponha todos no chinelo.