segunda-feira, abril 08, 2013

Nina


Para a estreia no aquário dos longas-metragens, Heitor Dhalia estalou os polegares sobre a cabeça e escolheu alguns patuás que devem ter parecido bálsamos, amuletos da salvação. Dividiu, por exemplo, o roteiro de “Nina” (2004) com Marçal Aquino: o parceiro de Beto Brant, fenômeno dos 1990 no cinema brasileiro.

Dhalia e Marçal adaptaram livremente “Crime e Castigo”, de Fiódor Dostoiévski. Coisa pouca. Vejam que o alvo foi jogado no alto, no altíssimo de uma literatura que fazia parecer brincadeira de criança as batatas de Quincas Borba e Machado de Assis.

Desde 1866, na Rússia, até 2004, na Praça Roosevelt, passaram vários caminhões. O que não impede que voltem à cena os esgares de Raskólnikov, o protagonista lunático, o suposto deus da raça, o pastor de meio mundo (Nelson Rodrigues que o diga).

Foi dada a largada: sabemos que Nina (Guta Stresser) repete a esquizofrenia do nosso velho Raskól.  Ao invés da hospedaria em São Petersburgo, o apartamento no Centro de São Paulo. Ao invés da agiota, a locadora repugnante (Eulália, Myriam Muniz). Ao invés dos sermões jusfilosóficos, Nina faz a louca nas raves, carcando e sendo carcada. Beija, transa, se irrita com o guri metrossexual que tem um Smurf tatuado no peito.

Nina precisa de um lugar ao sol, mas vive alucinada, solitária. Desenha, entope as paredes com os traços que na verdade são de Lourenço Mutarelli. Atenção: outro patuá surgindo na estrada.

Com Mutarelli, Dhalia realizou seu melhor filme até hoje, “O Cheiro do Ralo” (2007) – estrelado por Selton Mello, breve aparição em “Nina”. Visualmente, a atmosfera lúgubre de Mutarelli (que tanto remete ao americano Robert Crumb) foi solapada sem dó nem piedade em “O Cheiro do Ralo”. Uma fita popular, cínica e inesperada. “Nina”, porém, não alcança a mesma inventividade. O espectador pode dormir na pachorra eterna, matando cada trecho tal qual o esquimó ao construir o iglu: rápido e rasteiro.

Está claro que o conceito de “superioridade”, impensável nos politicamente corretos anos 2000, entrou em surto no século XIX. Raskolnikóv foi um dos profetas. Nina, porém, apenas tremelica. Grita frases a rodo, para quem quiser ouvir. Seria preciso internalizá-las. A única vez em que consegue – e facilita a empatia do público – é a hora em que detona o apartamento de um cego.

Nina rouba o dinheiro e depois ressarce os gastos de uma prostituta. Parece dizer: os enjeitados é que são os verdadeiros extraordinários, vocês aí estão com nada. A garota prefere choramingar, odiar Eulália, ser a receptora das maldades do mundo. E, como vegeta na superfície, nós, os que estamos com nada, não caímos na teia. Celofane com isopor.

No meio do corre-corre todo, sobra para Myriam Muniz um drible de estilo, uma jogada genial. Falecida em 2004, Myriam incorpora o bicho cinematográfico de sempre. Faz de Eulália a definição da criatura neurótica, mistress do mal. Não é difícil imaginá-la em São Paulo, nas reuniões de condomínio, com o avental sujo de manteiga Aviação. Provavelmente lembra de quando nadava com a família no Tietê e assobia as maravilhas da metrópole que não voltam mais. Tão quatrocentona e morta quanto o Elevado Costa e Silva, promessa de gigantismo, presente de rejeição.

O conflito entre Nina e Eulália renderia por si só um filme. Posso vê-las besuntadas em mel e amêndoas, após se torturarem horas a fio. Talvez não deixassem virar a canoa deste “Nina”, o último trabalho de Myriam Muniz no cinema. Para quem quiser Muniz no topo, sugiro “Das Tripas Coração” (1982), o estouro da diretora Ana Carolina. Carolina soube discutir interdição, autoridade e desejo com a non chalance de Nair Bello, Dina Sfat e as pernocas adolescentes de Maria Padilha.

Lá por volta de 2008, o canal HBO exibiu uma Nina em Tv a cabo, batizada de “Alice”. A atmosfera era parecida: mesmos produtores (irmãos Gullane), megalópole, transformação pessoal, abandono da cidade de origem. Nina, Ribeirão Preto. Alice, Palmas do Tocantins. A esperta Alice tendeu para a linha da fashion industry. Alice quis vencer e teve o sopro de Karim Aïnouz (outro contemporâneo de Dhalia). Nina esqueceu o que fazia na rua Augusta, passou a vagar feito uma parente bastarda e gótica dos anos 80.

Em “Gone/12 Horas” (2012), Heitor Dhalia utilizou o mesmo método de praxe: rompeu com o filme imediatamente antecessor. “O Cheiro do Ralo” havia quebrado as pernas de “Nina” e se estabacou em “À Deriva” (2009), por sua vez defenestrado pelo projeto de 2012. De todos, as rupturas soam frágeis, salvando-se o já citado “Ralo”. Ainda está para cavalgar no divisor de águas, o fiel mandatário que instaure o caminho e durma, quem sabe, no próprio quintal de casa, distante das tolas (e insípidas) megalomanias internacionais.

3 comentários:

Mr-X disse...

O exagero nas tintas fez com que, face às atrocidades da locadora, em vários momentos eu caí na risada (o que, em se tratando de um drama, é algo indesejado). De todo modo, o que fica mesmo desse filme é o desempenho magistral de Myriam Muniz. Uma despedida perfeita, pra dizer o mínimo.

Andrea Ormond disse...

Mr-X, o "Nina" seria bem melhor se ficasse concentrado na dupla Nina-Eulália. Aí sim, o couro comeria, até porque a Myriam Muniz não deixaria barato e, de novo, engoliria o filme.

ADEMAR AMANCIO disse...

E eu que nem sabia da morte de Myriam muniz.Onde já se viu.