segunda-feira, novembro 19, 2012

Os Amores da Pantera


Ângela Diniz foi morta com três tiros na cabeça. Desfigurada, de biquíni e t-shirt. Ficou estendida de bruços, na varanda da casa de praia. Homens ciumentos estrangulam ou esfaqueiam. Mulheres ciumentas matam a bala, para contornarem a força física. No caso de Ângela, a “Pantera de Minas”, as previsões falharam. Raul “Doca” Street deu os três tiros, como se estivesse em um surto narcísico de inveja – esta outra pantera –, arruinando a beleza alheia, que era semente de tudo.

O assassinato de Ângela, nas bordas do réveillon de 1977, estampou livros e livros e livros. Sob os muitos ângulos possíveis, escolho apenas um: o da loucura do casal. Pode-se falar também da chata explicação econômica (um playboy rico matando uma cocota). Pode-se fazer uma condenação ao consumo de drogas (que rolava solto). O fim dos tempos, o Armagedom, a falta de modos da mulher.

Advogado de Doca, o socialista Evandro Lins e Silva (ex-ministro do STF, cassado pelos militares em 1969) bateu firme na tese de que a moça se entregava a qualquer um. “Quem ama não mata”, diriam outros. Na versão de alguns gatos pingados, Doca foi um cordeiro do demo. Ofereceu-se ao sacrifício para apagá-la. Desta maneira, escondeu interesses escusos e internacionais, “muito maiores do que possamos imaginar”.

O caso Ângela revela um fascínio doentio: cabe nele toda sorte de firulas. O mesmo aconteceu, em menor escala, no sequestro de Carlinhos. O garoto também galgou o patamar de lenda urbana e pavor das famílias aflitas. Se Carlinhos ganhou “O Sequestro” (1981), Ângela ganhou este: “Os Amores da Pantera” (1977). Dirigido por Jece Valadão, trata-se de mais um filé da Magnus, concorrente da Vidya de Carlo Mossy, produtora de “O Sequestro”. Outra coincidência: em ambos os casos, o roteirista José Louzeiro. Uma diferença: em “O Sequestro”, argumento de Valério Meinel, repórter que saíra feito cão perdigueiro atrás de Carlinhos e publicara o livro homônimo.

Seguindo a bíblia de todo exploitation, “Os Amores da Pantera” chuta o balde da beleza física e da cafajestagem. Não tentem vê-lo com os olhos de 2012. Não dá certo. Até mesmo as inclinações moralistas de Louzeiro se curvam diante da câmera despudorada, que não ligava a mínima para cortes ou observações enrustidas.

Durante uma longa cena, o grupo de amigos cheira papelotes de cocaína. Deitam e rolam, se pegam, a orgia corre solta. Vultos do além começam a persegui-los. Eis a pororoca do filme: o tesão da orgia versus o roteiro que atribui ao consumo de drogas a condição de pecado. Existe a explicação sociológica de que a alta classe é mau caráter e se submete a esse tipo de ato vazio, sem sentido. O conceito é anti contracultura e parece não entender as folias momescas da época. Algo como Rachel de Queiroz escrevendo sobre Pervitin.

No entanto, cumpre-se a sutileza do cinema brasileiro setentista: o pecado é mostrado. Jece Valadão opera nesta hora, insidioso que só. Leva o absurdo até as últimas consequências e que se exploda o resto, sem a auto censura da imagem. Nas produções atuais, um garoto bonzinho, um jovem esforçado, um adulto bocó vencem as injustiças e melhoram a espécie. Cenas consideradas “fortes” dançam no limbo, ficam no Index e proibidas aos olhos do espectador.

Em “Os Amores da Pantera”, não. O filme vence feito uísque caubói, sem gelo. Mesmo que o discurso tenha aquela perversidade “exploitística”: a trama é um alerta para a sociedade (os ricos são cruéis, nossos filhos estão sujeitos a esse tipo de gente). Tudo baseado em um estudo seríssimo (a morte de Ângela foi determinada pelos motivos “escusos e internacionais”). Na prática, apesar do aparato ideológico CDF, o que se percebe é uma fita politicamente incorreta e cínica.

Outro detalhe chama atenção: por que, em todo filme brasileiro, no momento em que cafungavam cocaína as pessoas ficavam pastosas, deprimidas? Não pulavam, não trincavam os dentes, não se achavam o centro do universo. É um mistério. Provavelmente para não assustar a classe média, fiel compradora de ingressos, e que já havia se acostumado à (lombra da) maconha como o genérico de todas as drogas.

O recurso de “os fatos são mera coincidência” também aparece com força total. A protagonista (Tamara) recebe o carão de Vera Gimenez, esposa de Jece. Parece gato, mia feito gato, tem rabo de gato e não é o gato. Querem convencer-nos de que ela não é Ângela Diniz, a história não tem nada a ver com Doca Street e muito menos Ibrahim Sued. Sim, Ibrahim Sued, o ex-amigo íntimo de Ângela, que o trocou por Street.

Este perhaps o roteiro omite, colocando o duplo de Sued (Jaime Barcellos) como mero pedinte de dinheiro a Tamara. O clima de Agatha Christie do Posto 6 dá piruetas. Reviravoltas, mauriçolas, aparição de Adele Fátima em motel e música de um tal Chico Xavier, sabe-se lá homônimo ou o próprio médium multimídia mineiro.

Os versos de “Anjo” contam que a morta está no altar de Nossa Senhora e que “quem te causou o ferimento/ chora de arrependimento/ mas perdeu a liberdade”. “Aquele homem foi preso/ levado ao desprezo/ para viver isolado”. A letra é dúbia, morde e assopra. Fulana morreu, mas quem matou é igualmente coitado. Os golfejos lembram a canção de Elymar Santos para Ayrton Senna, escrita no calor do acidente de 1994: uma elegia popular, que capturou o momento, rasgado e histriônico. 

O momento de 77, aliás, era oportuno. Em breve, outro drama colocaria Valério Meinel e José Louzeiro no olho do crime. Sai a Pantera, entra Cláudia Lessin Rodrigues. Estudante, morta em julho, no Rio de Janeiro. “O Caso Cláudia” (1979) faz pouco do livro de Meinel, “Porque Cláudia Lessin Vai Morrer” e se limita a uma adaptação anódina, sem gosto e calibre. Deste erro “Os Amores da Pantera” não cai. Mesmo não atingindo a perfeição, supera em muito os rivais e brinca nas auréolas da trepidante Magnus, que como tudo de bom neste mundo maravilhoso, brotou de Copacabana e saiu dali para dominar o planeta. 
 

4 comentários:

carlosales disse...

Fez algum sucesso na época por conta do Crime de Buzios.O sumido ator Reinaldo Gonzaga no "papel" do Doca Street....foi brincadeira.

Daniel P disse...

que bom q você voltou a escrever mais. Sinto falta. Quando dá tempo corro sempre aqui pra respirar um pouquinho da brabeira do trabalho. beijo

Andrea Ormond disse...

Carlos, no "O Caso Cláudia", o papel do assassino Michel Frank ficaria com o Jonas Bloch. O Bloch pelo menos tentou salvar o filme...

Obrigada, Daniel. Você é leitor das antigas, fico feliz de te ver por aqui. Bjs

ADEMAR AMANCIO disse...

Estou vendo o filme,ótima resenha.